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Evolução


  Evolução

A teoria da evoluþÒo constituiu, desde os primeiros momentos de sua gÛnese, uma candente fonte de controvÚrsia, nÒo somente no campo cientÝfico, como tambÚm na ßrea ideol¾gica e religiosa.
A teoria da evoluþÒo, tambÚm chamada evolucionismo, afirma que as espÚcies animais e vegetais existentes na Terra nÒo sÒo imutßveis, mas sofrem ao longo das geraþ§es uma modificaþÒo gradual, que inclui a formaþÒo de raþas e espÚcies novas.

Hist¾ria

AtÚ o sÚculo XVIII, o mundo ocidental aceitava a doutrina do criacionismo, segundo a qual cada espÚcie, animal ou vegetal, tinha sido criada independentemente, por ato divino.

O pesquisador francÛs Jean-Baptiste Lamarck foi dos primeiros a negar esse postulado e a propor um mecanismo pelo qual a evoluþÒo se teria verificado. A partir da observaþÒo de que fatores ambientais podem modificar certas caracterÝsticas dos indivÝduos, Lamarck imaginou que tais modificaþ§es se transmitissem Ó prole: os filhos das pessoas que normalmente tomam muito sol jß nasceriam mais morenos do que os filhos dos que nÒo tomam sol. Chegava, mesmo, a admitir que era a necessidade de adaptar-se ao ambiente que fazia surgir nova caracterÝstica, a qual, uma vez adquirida pelo indivÝduo, se transmitiria a sua prole. Em contraposiþÒo, a inutilidade de um ¾rgÒo faria com que ele terminasse por desaparecer.

A necessidade de respirar na atmosfera teria feito aparecer pulm§es nos peixes que comeþaram a passar pequenos perÝodos fora d"ßgua, o que teria permitido a seus descendentes viver em terra mais tempo, fortalecendo os pulm§es pelo exercÝcio; as brÔnquias, cada vez menos utilizadas pelos peixes pulmonados, terminaram por desaparecer.

Assim, o mecanismo de formaþÒo de uma nova espÚcie seria, em linhas gerais, o seguinte: alguns indivÝduos de uma espÚcie ancestral passavam a viver num ambiente diferente; o novo ambiente criava necessidades que antes nÒo existiam, as quais o organismo satisfazia desenvolvendo novas caracterÝsticas hereditßrias; os portadores dessas caracterÝsticas passavam a formar uma nova espÚcie, diferente da primeira.

A doutrina de Lamarck foi publicada em Philosophie zoologique (1809; Filosofia zool¾gica), e teve, como principal mÚrito, suscitar debates e pesquisas num campo que, atÚ entÒo, era domÝnio exclusivo da filosofia e da religiÒo. Estudos posteriores demonstraram que apenas o primeiro postulado do lamarckismo estava correto; de fato, o ambiente provoca no indivÝduo modificaþ§es adaptativas; mas os caracteres assim adquiridos nÒo se transmitem Ó prole.

Em 1859, Charles Darwin publicou The Origin of Species (A origem das espÚcies), livro de grande impacto no meio cientÝfico que p¶s em evidÛncia o papel da seleþÒo natural no mecanismo da evoluþÒo. Darwin partiu da observaþÒo segundo a qual, dentro de uma espÚcie, os indivÝduos diferem uns dos outros. Hß, portanto, na luta pela existÛncia, uma competiþÒo entre indivÝduos de capacidades diversas. Os mais bem adaptados sÒo os que deixam maior n·mero de descendentes.

Se a prole herda os caracteres vantajosos, os indivÝduos bem dotados vÒo predominando nas geraþ§es sucessivas, enquanto os tipos inferiores se vÒo extinguindo. Assim, por efeito da seleþÒo natural, a espÚcie aperfeiþoa-se gradualmente. Entretanto, o sentido em que age a seleþÒo natural Ú determinado pelo ambiente, pois um carßter que Ú vantajoso num ambiente pode ser inconveniente em outro.

Os indivÝduos que tÛm o corpo recoberto por uma espessa camada de pÛlos levam vantagem num clima frio, mas estÒo menos adaptados a um clima quente. Se uma espÚcie tem indivÝduos dos dois tipos (peludos e desprovidos de pÛlos), a seleþÒo natural farß com que venham a predominar os primeiros nas regi§es frias e os outros nas regi§es quentes. Isso serß o inÝcio da diferenciaþÒo de duas raþas que, tornando-se cada vez mais diferentes, acabarÒo por constituir espÚcies distintas.

O darwinismo estava fundamentalmente correto, mas teve de ser complementado e, em alguns aspectos, corrigido pelos evolucionistas do sÚculo XX para que se transformasse na s¾lida doutrina evolucionista de hoje. As idÚias de Darwin e seus contemporÔneos sobre a origem das diferenþas individuais eram confusas ou erradas. Predominava o conceito lamarckista de que o ambiente faz surgir nos indivÝduos novos caracteres adaptativos, que se tornam hereditßrios.

Um dos primeiros a abordar experimentalmente a questÒo foi o bi¾logo alemÒo August Weismann, ainda no sÚculo XIX. Tendo cortado, por vßrias geraþ§es, os rabos de camundongos que usava como reprodutores, mostrou que nem por isso os descendentes passavam a nascer com rabos menores. Weismann estabeleceu tambÚm a distinþÒo fundamental entre cÚlulas germinais e cÚlulas somßticas.

Nas espÚcies de reproduþÒo sexuada, todas as cÚlulas de um indivÝduo provÛm da cÚlula inicial ·nica que lhe deu origem. No entanto, durante o desenvolvimento diferenciam-se no corpo duas partes, com destinos biol¾gicos diversos. As cÚlulas reprodutivas (gametas) transmitem aos descendentes as caracterÝsticas dos ancestrais. As cÚlulas somßticas, que constituem o resto do corpo (soma), nÒo passam Ó prole: morrem com o indivÝduo, o que explica por que as modificaþ§es produzidas no soma pelo ambiente nÒo passam Ó prole.

Complementando as idÚias de Weismann, em 1909 o geneticista dinamarquÛs Wilhelm Ludvig Johannsen demonstrou que a variabilidade dos indivÝduos dentro de uma espÚcie Ú, em parte, produzida por diferenþas nos genes que os indivÝduos possuem e, em parte, por influÛncia do meio. O fen¾tipo, ou aspecto do indivÝduo, resulta da aþÒo do gen¾tipo, modificada por fatores ambientais. S¾ o gen¾tipo, ou conjunto de genes, passa para a prole. Se o ambiente varia, o indivÝduo passa a ter um fen¾tipo diferente, sem que o gen¾tipo se altere. O carßter adquirido em resultado da adaptaþÒo individual nÒo passa, portanto, Ó prole.

As variaþ§es hereditßrias tÛm origem diferente. Baseando-se em estudos feitos com a planta denominada Oenothera lamarckiana, o botÔnico holandÛs Hugo de Vries elaborou em 1901 a teoria das mutaþ§es. De vez em quando, os genes sofrem modificaþ§es espontÔneas, nÒo relacionadas com a influÛncia do ambiente, e passam a determinar novos caracteres hereditßrios. Essas mutaþ§es quase nunca sÒo adaptativas; entretanto, pode acontecer, por acaso, que uma delas venha a ser ·til a seu portador, num determinado ambiente. Nesse caso, tal indivÝduo leva vantagem na competiþÒo com os demais e tem maior probabilidade de deixar prole numerosa, a qual herdarß o gene mutado. O novo carßter vai, aos poucos, predominando, podendo mesmo vir a substituir o antigo numa populaþÒo, dando inÝcio a uma variedade que pode, por um mecanismo semelhante, transformar-se numa espÚcie nova.

Os citologistas do fim do sÚculo XIX tinham descrito o comportamento dos cromossomos durante a mitose e a meiose. Esses conhecimentos, combinados com as leis de Mendel, mostravam claramente que os fatores hereditßrios antag¶nicos nÒo se fundem no hÝbrido, de modo que os caracteres surgidos por mutaþÒo, ainda que muito raros, nÒo se diluem por efeito dos cruzamentos que se processam ao longo das geraþ§es subsequentes, como pensava Darwin.

Se o gene que sofreu mutaþÒo determina um carßter inconveniente, serß eliminado por seleþÒo natural; mas se, por acaso, a mutaþÒo Ú benÚfica, a freq³Ûncia do gene correspondente aumentarß nas geraþ§es sucessivas, e o gene nÒo perderß suas caracterÝsticas por coexistir com seus alelos nos indivÝduos hÝbridos.

Outra fonte de variaþÒo hereditßria, ao lado das mutaþ§es, Ú a recombinaþÒo entre os genes. O estudo da meiose e da segregaþÒo mendeliana mostrou que, ao passar de uma geraþÒo para a seguinte, os genes sÒo, por trÛs vezes, reagrupados ao acaso.

Na pr¾fase da meiose, os cromossomos trocam pedaþos e ficam, assim, com certos alelos diferentes dos que possuÝam. Na metßfase, os cromossomos hom¾logos se separam e vÒo formar, nos gametas, conjuntos haploides em que figuram cromossomos maternos e paternos em qualquer proporþÒo. Finalmente, na fecundaþÒo, os cromossomos assim reorganizados vÒo-se juntar com os provenientes de um outro indivÝduo. O n·mero de gen¾tipos diferentes que podem surgir em conseq³Ûncia da recombinaþÒo de genes Ú extraordinariamente grande.


Mecanismo da evoluþÒo

Preliminares

Caracteres novos e hereditßrios podem surgir por mutaþÒo de um ·nico gene, ou por mutaþ§es cromoss¶micas, que resultam de vßrios acidentes que os cromossomos sofrem, como perda ou duplicaþÒo de um pequeno fragmento, inversÒo na posiþÒo de um pedaþo, ou translocaþÒo de um fragmento de um cromossomo para outro. Qualquer dessas anomalias pode provocar uma alteraþÒo nos caracteres aparentes dos organismos.

Cada tipo de mutaþÒo ocorre com uma determinada freq³Ûncia. Calcula-se, por exemplo, que a mutaþÒo que produz a hemofilia ocorre com a freq³Ûncia de dois ou trÛs genes em cem mil. A freq³Ûncia das mutaþ§es espontÔneas foi medida para muitos genes na mosca-do-vinagre (Drosophila melanogaster), no milho e em outras espÚcies.

Em 1926, o geneticista americano Hermann Joseph Muller conseguiu, pela primeira vez, aumentar experimentalmente a freq³Ûncia das mutaþ§es na mosca-do-vinagre, submetendo-a aos raios X, trabalho que lhe valeu o PrÛmio Nobel de fisiologia ou medicina em 1946. Muller demonstrou que a freq³Ûncia de todas as mutaþ§es aumentava proporcionalmente com a dose de raios X empregada. Outras radiaþ§es penetrantes produzem o mesmo efeito que os raios X, quando aplicadas em dosagens equivalentes.

O gßs de mostarda, um dos componentes dos gases asfixiantes usados na primeira guerra mundial, mostrou-se tÒo ativo como os raios X, na produþÒo de mutaþ§es na mosca-do-vinagre. Outras substÔncias quÝmicas tambÚm provocam mutaþ§es, embora em menor escala. A colquicina, alcal¾ide extraÝdo da planta Colchicum autumnale, tem a propriedade de inibir a formaþÒo do fuso, durante a mitose: como resultado, os cromossomos duplicam-se normalmente, mas nÒo se separam, de modo que a cÚlula fica com o n·mero de cromossomos dobrado. O calor tambÚm Ú um agente mutagÛnico: a freq³Ûncia das mutaþ§es em dros¾filas dobra ou triplica para cada 10║ C de elevaþÒo da temperatura ambiente.

Quase todas as mutaþ§es sÒo inconvenientes para seus portadores, pois as espÚcies atualmente existentes resultam de um longo processo de evoluþÒo, pelo qual as combinaþ§es gÛnicas mais convenientes para os indivÝduos, no ambiente em que vivem, foram fixadas como caracterÝsticas normais da espÚcie. A alteraþÒo de um gene, ao acaso, tem grande probabilidade de ter conseq³Ûncia indesejßvel. Por exemplo, um novo gene que surja por mutaþÒo pode interferir no metabolismo de forma a tornar impossÝvel a formaþÒo de um organismo vißvel; uma mutaþÒo desse tipo, que mata precocemente o organismo, Ú chamada letal.

└s vezes, a mutaþÒo nÒo tem conseq³Ûncia tÒo drßstica e produz um efeito que prejudica o indivÝduo sem, entretanto, eliminß-lo. ╔ o caso das mutaþ§es que produzem anomalias ou doenþas hereditßrias, como o albinismo e a hemofilia. Ainda outras mutaþ§es provocam apenas alteraþ§es ligeiras, que nÒo chegam a ter valor adaptativo, isto Ú, nÒo prejudicam nem favorecem seus portadores. SÒo desse tipo as mutaþ§es que alteram, por exemplo, a forma de borda da orelha.

As mutaþ§es que produzem modificaþ§es extremamente pequenas, muito difÝceis de serem percebidas, sÒo, porÚm, as mais importantes para a evoluþÒo das espÚcies, pois tÛm maior probabilidade de dotarem seus portadores com alguma vantagem. Como as espÚcies jß estÒo, em geral, muito bem adaptadas ao meio em que vivem, qualquer modificaþÒo radical serß quase fatalmente prejudicial.

Exemplo clßssico da aþÒo da seleþÒo natural Ú o ocorrido com populaþ§es de mariposas europeias que habitam zonas industriais. Quase todos os indivÝduos de cerca de setenta espÚcies diferentes de mariposas da Inglaterra perderam suas cores variegadas e ficaram uniformemente negros nas zonas fabris e suas vizinhanþas. A mariposa inglesa Biston betularia, por exemplo, tem o corpo coberto por uma mescla de pintas brancas e pretas, o que faz com que ela se confunda com os lÝquens dos troncos das ßrvores em que pousa. Graþas Ó proteþÒo conferida por esse mimetismo, ela escapa da perseguiþÒo de seus predadores.

Em 1850, encontrou-se, perto de Manchester, um exemplar todo negro (melÔnico) dessa espÚcie, o primeiro a ser conhecido. Desde entÒo, a variedade negra vem sobrepujando a forma pintada, que se tornou muito rara na regiÒo de Manchester. Para explicar uma transformaþÒo tÒo rßpida e radical na composiþÒo de uma populaþÒo, formulou-se a hip¾tese de que, nas regi§es fabris, onde as ßrvores ficam cobertas de fuligem, a variedade pintada torna-se mais visÝvel que a melÔnica, e Ú mais rapidamente exterminada pelas aves. Essa hip¾tese veio a ser confirmada experimentalmente: soltou-se igual n·mero de indivÝduos pintados e negros na floresta limpa e verificou-se que os melÔnicos eram devorados pelos pßssaros em muito maior n·mero do que os pintados. Quando a mesma experiÛncia foi realizada numa floresta coberta de fuligem, perto de uma ßrea industrial, o resultado foi inverso: os pintados Ú que foram dizimados.

╔ evidente que, mesmo antes do surto industrial na Inglaterra, as mariposas negras jß surgiam por mutaþÒo; mas eram rapidamente destruÝdas, por serem muito visÝveis sobre os lÝquens, e tinham, assim, pouca probabilidade de deixar descendentes. O tipo pintado, ao contrßrio, escondia-se melhor e produzia prole numerosa. Com a modificaþÒo do ambiente, a situaþÒo inverteu-se: a forma negra Ú que ficou sendo mimÚtica, enquanto a forma pintada, mais visÝvel em contraste com a fuligem, passou a ser eliminada.

Um bom reforþo dessa explicaþÒo ocorreu quando novamente se passou a observar um aumento significativo na freq³Ûncia da forma pintada: Ú que, como resultado de medidas tomadas pelo governo para combater a poluiþÒo, os troncos das ßrvores tinham ficado mais claros, livres de fuligem.

A seleþÒo natural age continuamente sobre todas as espÚcies. Um exemplo na espÚcie humana Ú o da anemia falciforme, doenþa hereditßria comum em certas regi§es da ┴frica. A anomalia Ú causada por um gene recessivo que determina a sÝntese de uma hemoglobina an¶mala nos gl¾bulos vermelhos do sangue. Os homozigotos quanto a esse gene morrem ainda na infÔncia, mas os heterozigotos nÒo manifestam a doenþa, embora possam ser reconhecidos por um tipo especial de exame de sangue.

Genes letais como esse sÒo constantemente eliminados pela morte dos homozigotos, de modo que, em geral, suas freq³Ûncias se mantÛm muito baixas nas populaþ§es. Surpreendentemente, verificou-se, porÚm, que certas populaþ§es africanas apresentavam freq³Ûncias altÝssimas do gene da anemia falciforme.

Essa situaþÒo intrigou os geneticistas, atÚ ser descoberta sua explicaþÒo: as populaþ§es africanas com alta incidÛncia de anemia falciforme eram as que viviam em regi§es de malßria; as populaþ§es nÒo expostas Ó malßria apresentavam apenas raros casos da doenþa. Levado por esse indÝcio, levantou-se a hip¾tese, depois demonstrada experimentalmente, de que os gl¾bulos vermelhos dos indivÝduos heterozigotos quanto Ó anemia falciforme resistem melhor ao ataque do plasm¾dio da malßria.

Ficou claro, entÒo, que, nas zonas malarÝgenas, ter o gene da anemia falciforme, em dose simples, constitui grande vantagem, pois isso defende seu portador contra a malßria. Assim, a seleþÒo natural favorece o gene, em heterozigose, embora o elimine em homozigose. Como, em qualquer populaþÒo, os heterozigotos sÒo muito mais numerosos que os homozigotos, a freq³Ûncia do gene mantÚm-se elevada.

Uma alteraþÒo do ambiente faz com que certos tipos dentro de uma espÚcie passem a ser mais eficientes do que outros e acabem por predominar. Se todos os indivÝduos de uma espÚcie fossem geneticamente idÛnticos, a seleþÒo natural nÒo poderia agir; mas as mutaþ§es estÒo sempre produzindo novas variaþ§es dentro das populaþ§es e, assim, promovem a variabilidade necessßria para que a seleþÒo natural possa influir na composiþÒo das populaþ§es, de acordo com as modificaþ§es do ambiente.

Entretanto, nem todos os genes nocivos vÛm a ser eliminados pela seleþÒo natural: os genes recessivos sÒo mantidos, em certa freq³Ûncia, nos heterozigotos, que sÒo fenotipicamente normais e podem transmitir o gene Ó metade de seus descendentes. Como os genes recessivos inconvenientes sÒo muitos, embora cada qual exista na populaþÒo em baixa freq³Ûncia, em mÚdia, cada pessoa Ú heterozigota para alguns genes recessivos prejudiciais.

Se o ambiente em que vive uma espÚcie fosse constante ao longo das geraþ§es, tal espÚcie iria adaptando-se cada vez melhor a seu ambiente, pela substituiþÒo das combinaþ§es gÛnicas menos favorßveis por outras mais adequadas. Assim, a espÚcie evoluiria como um todo, sem se fragmentar em raþas e espÚcies novas. O mais comum, entretanto, Ú que a espÚcie viva em diferentes micro-habitats, criados por alteraþÒo das condiþ§es do meio em partes da zona ocupada, ou que a espÚcie se difunda por regi§es novas. Em ambos os casos, a seleþÒo natural passa a atuar em sentidos divergentes nos diferentes habitats, de modo que as populaþ§es que neles vivem tendem a diversificar-se em raþas distintas.

Outro fator importante na modificaþÒo genÚtica das raþas Ú a migraþÒo. Os Ýndios americanos, por exemplo, sÒo descendentes dos povos mongoloides asißticos, mas deles diferem em vßrios aspectos, em razÒo da evoluþÒo divergente determinada pela separaþÒo dos dois grupos em continentes diversos.

Modificaþ§es na configuraþÒo geogrßfica podem dar oportunidade a importantes movimentos migrat¾rios de plantas e animais. Um exemplo Ú a restauraþÒo da ligaþÒo entre a AmÚrica do Norte e a do Sul, que tinham estado separadas pelo oceano desde o paleoceno atÚ o fim do plioceno (o que representa cerca de 65 milh§es de anos). Durante esse tempo, a evoluþÒo dos mamÝferos tinha seguido rumos diferentes nos dois hemisfÚrios, com a formaþÒo de espÚcies locais. Os f¾sseis do mioceno mÚdio revelam que havia, por essa Úpoca, 27 famÝlias de mamÝferos na AmÚrica do Norte e 23 na AmÚrica do Sul, sem que nenhuma delas existisse concomitantemente nas duas regi§es.

Com a restauraþÒo do istmo do Panamß, as espÚcies da AmÚrica do Norte invadiram a AmÚrica do Sul e vice-versa. Essa troca de faunas redundou numa modificaþÒo radical no ambiente vivo dos dois continentes, o que provocou a extinþÒo de muitas espÚcies sul-americanas, na competiþÒo com espÚcies mais eficientes provenientes do norte. No pleistoceno, entre as 32 famÝlias de mamÝferos da AmÚrica do Norte e as 36 da AmÚrica do Sul, 21 eram comuns aos dois continentes.

Ap¾s a descoberta da AmÚrica, muitas plantas e animais foram trazidos da Europa, da ┴frica e da ┴sia, e nela se estabeleceram. Os amerÝndios foram, em grande parte, aniquilados, deixando, entretanto, seus genes incorporados, embora em pequena proporþÒo, ao patrim¶nio hereditßrio do grupo dominador, por meio de intercruzamentos.

Quando a densidade da populaþÒo numa ßrea atinge um nÝvel alto, a sobrevivÛncia fica difÝcil, os indivÝduos sÒo impelidos para fora da zona e a distribuiþÒo geogrßfica da espÚcie Ú ampliada. As regi§es contÝguas sÒo ocupadas, a menos que existam barreiras intransponÝveis. O novo ambiente conquistado pode ser diferente, de modo que a seleþÒo natural segue nele novos rumos e, se a comunicaþÒo com a populaþÒo inicial for difÝcil, a espÚcie pode dividir-se em duas.


Isolamento geogrßfico

Quando Darwin visitou as ilhas Galßpagos, impressionou-o encontrar ali in·meras espÚcies que nÒo existiam em nenhum outro lugar. Certos pßssaros da subfamÝlia dos geospigÝneos, por exemplo, diferenciaram-se, em Galßpagos, em 14 espÚcies, pertencentes a quatro gÛneros, nÒo representadas em nenhum outro lugar. A principal diferenþa entre as espÚcies estß no bico, que vai desde um tipo curvo e robusto, como o dos periquitos, atÚ um tipo fino e delgado, que corresponde, em cada espÚcie, ao tipo de alimento usado (frutos, grÒos, insetos) e tem, portanto, evidente funþÒo adaptativa.

╔ provßvel que o arquipÚlago tenha sido ocupado por aves vindas do continente, que ocuparam as diferentes ilhas e constituÝram populaþ§es relativamente isoladas, que puderam evoluir independentemente, atÚ virem a formar espÚcies distintas. Numa ilha onde abundavam insetos pequenos as mutaþ§es que tornavam o bico delicado foram fixadas pela seleþÒo natural, enquanto em outra ilha, rica em sementes duras, o bico forte tinha maior valor adaptativo e por isso se diferenciou.


Isolamento reprodutivo

A distribuiþÒo da espÚcie Rana pipiens por toda a ßrea dos Estados Unidos determinou um isolamento geogrßfico entre as populaþ§es mais distintas. Assim, exemplares do extremo norte podem cruzar-se, no laborat¾rio, com exemplares do extremo sul, mas os embri§es morrem antes da eclosÒo, o que demonstra que, mesmo que as duas raþas vivessem lado a lado, nÒo poderiam trocar genes, pois os hÝbridos sÒo invißveis.

Entretanto, cada populaþÒo da Rana pipiens dß prole fÚrtil, ao cruzar-se com outra populaþÒo contÝgua, e isso desde o norte atÚ o sul dos Estados Unidos. Assim, um gene surgido por mutaþÒo no extremo norte teria a possibilidade de ser introduzido na populaþÒo da Fl¾rida, migrando por meio das outras. Todavia, se as populaþ§es intermedißrias desaparecessem, em conseq³Ûncia de modificaþ§es geol¾gicas, e as duas populaþ§es extremas passassem a conviver no mesmo ambiente, a troca de genes entre elas seria impossÝvel: elas constituÝram duas espÚcies distintas.

Provavelmente, a distribuiþÒo da espÚcie pela enorme ßrea que ocupa determinou um isolamento geogrßfico entre as populaþ§es mais distantes; ao mesmo tempo, tais populaþ§es encontraram ambientes diferentes, que fizeram com que seu patrim¶nio hereditßrio evoluÝsse em direþ§es diversas, sob a influÛncia das mutaþ§es e da seleþÒo natural. Nas populaþ§es mais extremas, essa diferenciaþÒo atingiu um ponto tal que a produþÒo de hÝbridos vißveis tornou-se impossÝvel. Surgiu, entÒo, em conseq³Ûncia do isolamento geogrßfico, um isolamento reprodutivo total entre elas.


Origem das raþas

As mutaþ§es, as recombinaþ§es gÛnicas, a seleþÒo natural, as diferenþas de ambiente, os movimentos migrat¾rios e o isolamento, tanto geogrßfico como reprodutivo, concorrem para alterar a freq³Ûncia dos genes nas populaþ§es e sÒo, assim, os principais fatores da evoluþÒo.

Suponha-se que uma espÚcie estava estabelecida, em tempos remotos, numa regiÒo restrita e uniforme. Cada indivÝduo era geneticamente diferente dos demais: as recombinaþ§es gÛnicas, promovidas pela reproduþÒo sexuada, e as mutaþ§es mantinham essa diversidade.

Admita-se, ainda, que a espÚcie nÒo estivesse subdividida em raþas: era uma espÚcie monotÝpica. Suponha-se, agora, que, vencendo certas barreiras naturais, como rios ou montanhas, um grupo de indivÝduos tenha conseguido colonizar uma ßrea limÝtrofe, cujas condiþ§es ambientais conseguiram tolerar com dificuldade. A seleþÒo natural entra em aþÒo, eliminando grande parte dos colonizadores e de seus descendentes, mas a variabilidade genÚtica preexistente garante que grande parte dos indivÝduos prolifere, por terem algumas peculiaridades hereditßrias.

Alguns genes, ou combinaþ§es gÛnicas, que no ambiente anterior eram nocivos, podem revelar-se ·teis. Novas mutaþ§es e combinaþ§es, sob a aþÒo da seleþÒo natural, vÒo tornando a populaþÒo cada vez mais adaptada ao novo ambiente. Forma-se, assim, uma nova raþa geogrßfica, cujas caracterÝsticas diferem das do estoque original.

Duas raþas geograficamente isoladas evoluem independentemente e se diversificam cada vez mais, atÚ que as diferenþas nos ¾rgÒos reprodutores, ou nos instintos sexuais, ou no n·mero de cromossomos, sejam grandes a ponto de tornar o cruzamento entre elas impossÝvel ou, quando possÝvel, produtor de prole estÚril. Com isso, as duas raþas transformam-se em espÚcies distintas, isto Ú, populaþ§es incapazes de trocar genes. DaÝ por diante, mesmo que as barreiras venham a desaparecer e as espÚcies passem a compartilhar o mesmo territ¾rio, nÒo haverß entre elas cruzamentos vißveis. As duas espÚcies formarÒo, para sempre, unidades biol¾gicas estanques, de destinos evolutivos diferentes.

Se, entretanto, o isolamento geogrßfico entre duas raþas Ú precßrio e desaparece depois de algum tempo, o cruzamento entre elas tende a obliterar a diferenciaþÒo racial e elas se fundem numa mesma espÚcie, monotÝpica, porÚm muito varißvel. ╔ o que estß acontecendo com a espÚcie humana, cujas raþas se diferenciaram enquanto as barreiras naturais eram muito difÝceis de vencer e quase chegaram ao ponto de formar espÚcies distintas; mas os meios de transporte, introduzidos pela civilizaþÒo, aperfeiþoaram-se antes que se estabelecessem mecanismos de isolamento reprodutivo que tornassem o processo irreversÝvel. Os cruzamentos inter-raciais tornaram-se freq³entes e a humanidade estß-se amalgamando numa espÚcie cada vez mais homogÛnea, mas com grandes variaþ§es.

Populaþ§es que se intercruzam amplamente apresentam pequenas diferenþas genÚticas, mas as populaþ§es isoladas por longo tempo desenvolvem diferenþas considerßveis. Em teoria, raþas sÒo populaþ§es de uma mesma espÚcie que diferem quanto Ó freq³Ûncia de genes, mesmo que essas diferenþas sejam pequenas. A divisÒo da humanidade em determinado n·mero de raþas Ú arbitrßria; o importante Ú reconhecer que a espÚcie humana, como as demais, estß dividida em alguns grupos raciais maiores que, por sua vez, se subdividem em raþas menos distintas, e a subdivisÒo continua atÚ se chegar a populaþ§es que quase nÒo apresentam diferenþas.

As subespÚcies representam o ·ltimo estßdio evolutivo na diferenciaþÒo das raþas, antes do estabelecimento dos mecanismos de isolamento reprodutivo. SÒo, portanto, distinguÝveis por apresentarem certas caracterÝsticas em freq³Ûncia bem diferentes. NÒo se cruzam, por estarem separadas, mas sÒo capazes de produzir hÝbridos fÚrteis, se colocadas juntas.

Por esse critÚrio, que Ú o aceito pela biologia moderna, os nativos da ┴frica e da selva amaz¶nica, por exemplo, sÒo raþas que atingiram plenamente o nÝvel de subespÚcies. O mesmo pode-se dizer dos italianos e os esquim¾s etc., mas nÒo hß grupos humanos que se tenham diferenciado em espÚcies distintas, pois espÚcies sÒo grupos biol¾gicos que nÒo se intercruzam habitualmente na natureza, mesmo quando os indivÝduos habitam o mesmo territ¾rio.


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