Arquitetura e urbanismo - BioMania
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Arquitetura e urbanismo


  Histologia

O desenvolvimento psicossocial dos seres humanos ao longo de toda sua hist¾ria foi condicionado, em grande medida, pela oposiþÒo entre a natureza e o homem. A resposta aos estÝmulos proporcionados pelo meio e a capacidade de encontrar soluþ§es prßticas para os problemas de defesa e reproduþÒo da espÚcie se expressam de maneira singular na arquitetura. A procura instintiva de um ref·gio para se proteger e estabelecer um grupo deu lugar, depois de um ßrduo processo evolutivo, Ó criaþÒo de estruturas artificiais construÝdas pela mÒo do homem. Erigidas de inÝcio com materiais obtidos diretamente da natureza e sem transformaþÒo, essas estruturas evoluÝram para novas formas, jß distantes dos abrigos primitivos, cuja funþÒo jß nÒo se limitava ao fato de serem habitßveis.

O desenvolvimento intelectual e social do ser humano, sua capacidade de enfrentar a morte, de promover a veneraþÒo ou adoraþÒo de si mesmo, de sentir-se admirado e mesmo de afirmar seu poder no interior de um grupo social, alÚm da satisfaþÒo de necessidades cada vez mais requintadas, foram as causas da diversidade de formas assumidas pelas edificaþ§es que iam definindo novos espaþos.
A arquitetura nÒo seria um elemento dinÔmico tÒo importante se nÒo estivesse conjugada Ó sensibilidade artÝstica que faz parte da inteligÛncia humana. ExpressÒo do ser sensÝvel, a arquitetura constr¾i com a matÚria, criando beleza, ordem e harmonia. Interage e brinca com o espaþo, isola ou integra o homem, esmagando-o ou escolhendo-o para centro e chave da composiþÒo. A arquitetura Ú tambÚm um dißlogo com a natureza, com os componentes fÝsicos da Terra, numa relaþÒo Ós vezes difÝcil e mesmo dramaticamente resolvida. Simb¾lica ou funcional, pessoal ou integradora de uma sociedade, aberta ou fechada em si mesma, a arquitetura envolve uma prßtica criativa, essencialmente humana, e sensorial.


TÚcnicas e tipologias arquitet¶nicas

Os espaþos habitßveis, ou as formas e estruturas simb¾licas construÝdas pelo homem, sÒo fruto de varißveis culturais, sociais e ideol¾gicas que formam uma mentalidade e dependem, em primeira instÔncia, dos materiais disponÝveis e do ambiente em que o construtor vai criar sua obra.
No alvorecer da realizaþÒo arquitet¶nica, a necessidade de erigir construþ§es perenes estimulou a procura de materiais estßveis e durßveis, que permitissem uso prolongado e, dependendo do valor simb¾lico da construþÒo, que despertassem no observador as sensaþ§es adequadas. De forma anßloga, a relaþÒo homem-ambiente, ou seja, a existÛncia de condicionantes fÝsicos e climßticos, foi um dos fatores bßsicos da evoluþÒo da obra arquitet¶nica.

Desde os tempos mais remotos, a terra serviu como elemento principal na construþÒo, por ser facilmente encontrßvel e manipulßvel e tambÚm pela diversidade de formas e usos que confere aos produtos a que serve de matÚria-prima. A taipa, massa que se obtÚm da mistura de argila, ßgua e palha, e produtos mais elaborados como os tijolos sÒo alguns dos materiais mais utilizados na construþÒo. Outros elementos da natureza, como a pedra e a madeira, sob diversas formas e variedades, sÒo tidos como materiais bßsicos da arquitetura. A esses o homem acrescentou outros materiais, produtos do desenvolvimento tecnol¾gico, que pouco a pouco se integraram a nossa cultura

O ferro e outros metais, cujo emprego revolucionou as tÚcnicas de construþÒo praticadas no sÚculo XIX; o vidro, que permitiu a criaþÒo de obras arquitet¶nicas cheias de luz, substituiu as paredes e integrou os espaþos internos e externos de um edifÝcio; o cimento armado; o plßstico e outros materiais cuja simplicidade e rapidez no uso abriram um novo leque de possibilidades de utilizaþÒo, ampliaram os limites da produþÒo arquitet¶nica e derrubaram todas as barreiras impostas Ó criatividade e Ó expressÒo artÝstica na construþÒo.

A sistematizaþÒo e diversificaþÒo dos elementos que integram a construþÒo, adaptados dos materiais obtidos da natureza -- a coluna como resultado da transformaþÒo da ßrvore que sustentava o teto das moradias -- ou de processos tÚcnicos -- arcos, c·pulas e outros -- e mesmo como resposta a quest§es intelectuais ou simb¾licas -- a ab¾bada como representaþÒo do cÚu -- constituem uma parte importante dos estudos sobre o fato arquitet¶nico e fator imprescindÝvel para conhecer a evoluþÒo artÝstica das diferentes culturas.

NÒo se pode esquecer que a adaptaþÒo ao meio fÝsico e climßtico em que um grupo estß situado condiciona de maneira decisiva a criaþÒo artÝstica. Aos fatores fÝsicos que condicionam o construtor, como por exemplo a maior ou menor dificuldade para erguer uma construþÒo ou a existÛncia dos materiais necessßrios Ó realizaþÒo da obra, se acrescentam os fatores climßticos. O calor, a chuva e a luminosidade condicionam e determinam a configuraþÒo e caracterÝsticas particulares de uma obra arquitet¶nica.

A partir do que se disse acima, pode-se inferir a diversidade e a multiplicidade das quest§es que constituem o saber arquitet¶nico como entidade uniforme. Dada a complexidade de algumas noþ§es envolvidas no estudo da evoluþÒo e traþos caracterÝsticos de cada tendÛncia, a arquitetura nÒo se enquadra numa definiþÒo estrita, mas, como toda arte, estß aberta a possibilidades praticamente infinitas.
Para a anßlise detalhada de alguns elementos de composiþÒo arquitet¶nica, vejam-se os verbetes relacionados no quadro n║ 1.

COMPOSIÃ├O ARQUITETÈNICA

A criaþÒo de edifÝcios estß sujeita Ó dualidade do ser humano, no qual se conjugam a necessidade prßtica e o impulso artÝstico e intelectual. Para dar resposta Ós duas atitudes, tanto os artistas an¶nimos quanto os grandes nomes da arquitetura universal erigiram suas obras e deram sua contribuiþÒo Ó evoluþÒo do gosto e Ó estÚtica. Por esse motivo, na arquitetura o elemento simb¾lico tem mais peso que em outras artes. Os sÝmbolos religiosos e sociais, lugares onde o homem se dedica Ó procura de si mesmo, de seu semelhante ou de Deus; os sÝmbolos do poder -- Ú notßvel a vinculaþÒo que muitos arquitetos mantiveram com as autoridades polÝticas de um grupo social --; ou as meras formas construÝdas que existem por si mesmas, em sua necessidade de erigir-se diante dos homens e criar referÛncias que o ajudem a pensar sua existÛncia, sÒo todos express§es da necessidade sempre latente de procurar soluþ§es para as necessidades psicol¾gicas e sociais dos seres humanos.

A ligaþÒo com outras disciplinas cientÝficas e ramos das artes tambÚm ocorre de maneira acentuada na arquitetura. Sua associaþÒo com a engenharia possibilitou elevar a qualidade tÚcnica das construþ§es e ampliar as dimens§es prßticas e funcionais delas. De forma anßloga, o artista plßstico, criador de formas e imagens, se relaciona estreitamente com o arquiteto e chega, muitas vezes, a confundir-se com ele. Com o urbanismo, a arquitetura assumiu um papel social e procurou outros ramos da ciÛncia, como a sociologia, a ecologia e o modo de ampliar seus conhecimentos sobre os fen¶menos urbanos.

DESENVOLVIMENTO DOS MODELOS ARQUITETÈNICOS

EvoluþÒo hist¾rica: o mundo antigo

NÒo se pode dizer que fossem obras arquitet¶nicas os primeiros espaþos habitßveis utilizados pelo homem primitivo. A busca de um ref·gio natural para proteger-se Ú mais pr¾xima dos comportamentos animais que de uma conduta propriamente humana e criativa. O surgimento da construþÒo, atrasado em relaþÒo a outras manifestaþ§es artÝsticas, como a pintura, s¾ se verificou no neolÝtico, quando convergiram os dois impulsos bßsicos que determinaram o aparecimento da arquitetura na hist¾ria da cultura: a necessidade de construir moradias e o desejo de erigir monumentos simb¾licos ou espirituais. Os monumentos megalÝticos ilustram bem o segundo caso.

Na cultura mesopotÔmica que se desenvolveu entre os sÚculos IV e I a.C., o elemento polÝtico e religioso atingiu uma nova e extraordinßria importÔncia. A civilizaþÒo surgida entre os rios Tigre e Eufrates hierarquizou os elementos da construþÒo e, como resultado de uma ordem centralizada, recriou em seus projetos urbanÝsticos, nos templos em forma de pirÔmides e em suntuosos palßcios as formas que se tornariam caracterÝsticas daquela civilizaþÒo. Os arquitetos da MesopotÔmia, ante a impossibilidade de trabalhar com materiais como a pedra e a madeira, produziram uma arte escorada no tijolo, elemento com o qual criaram estruturas e formas artÝsticas de grande beleza. A arquitetura mesopotÔmica, no entanto, ao mesmo tempo frßgil e grandiosa, nÒo resistiu Ó passagem do tempo.

A hist¾ria da arquitetura do Egito antigo se confunde com a hist¾ria de uma das mais importantes culturas do mundo antigo. SÝmbolo de poder, a criaþÒo oficial do Egito se ligava ao culto da personalidade do fara¾, personificaþÒo da autoridade religiosa e polÝtica numa s¾ pessoa. A pedra, eterna e firme como o soberano, era empregada sob diversas formas: profusamente trabalhada, serviu como suporte e material decorativo; permitiu coibir a atuaþÒo dos sacrÝlegos que tentavam violar os t·mulos reais; e foi a base sobre a qual se gravaram os hier¾glifos que eternizaram a vida social, espiritual e polÝtica dos egÝpcios. Essas grandiosas construþ§es se erigiram no anonimato: foram obras de uma sociedade que obedecia a um deus supremo e o venerava.

RarÝssimas vezes se conhecia pelo nome o arquiteto, que nÒo passava de um serviþal do verdadeiro autor da obra: o fara¾. Mais mestres-de-obras que arquitetos, mais s·ditos que artistas, os construtores egÝpcios erigiram suas obras para a imortalidade, pois romperam com a escala humana para erguer monumentos nos quais o trabalho a empregar era incalculßvel e a duraþÒo do reinado do fara¾ era a ·nica medida de tempo estabelecida. O Egito edificado para os homens, de casas de barro e palha, desapareceu ou deixou raros vestÝgios. As criaþ§es arquitet¶nicas que restaram continuam a exibir a intemporalidade que caracterizou sua criaþÒo.

A GrÚcia rompeu radicalmente com essa concepþÒo de criaþÒo arquitet¶nica. O homem grego jß nÒo era entendido como realidade fÝsica submissa ao poder polÝtico e religioso. O ser humano forjava entÒo sua pr¾pria essÛncia, social e individual, e descobria que o ato de pensar, a criatividade e o desejo de beleza obedeciam a uma ordem, a uma harmonia e a uma capacidade de relacionar-se com a natureza e com o mais rec¶ndito de si mesmo. Em Creta jß se havia definido uma nova maneira de conceber o homem, o que pode ser comprovado pelos restos arqueol¾gicos e pela reconstituiþÒo dos palßcios min¾icos, mas foi na GrÚcia que se determinou todo o valor social da cultura. A civilizaþÒo helÛnica descobriu a funþÒo do arquiteto. Este, protegido por fil¾sofos e intelectuais, com quem compartilhava o gosto pelos n·meros e pela geometria, nÒo criou obras para um poder absoluto, mas para a comunidade, para um grupo social. A pr¾pria sociedade se via plasmada na obra do artista, a quem ela imp¶s a escala humana, sua pr¾pria medida. As construþ§es urbanas nÒo obedeciam a um esquema simÚtrico e ordenado: eram obras ·nicas, com personalidade pr¾pria. Como seus criadores, a sociedade expressa pela mÒo do arquiteto buscava a pluralidade e uma ordem harmoniosa. Por todos esses motivos, as ordens clßssicas, longe de serem modelos determinantes, se configuravam como regras gerais que orientavam a singularidade e a variedade da criaþÒo arquitet¶nica.

Durante o perÝodo helenÝstico, o arquiteto comeþou a manifestar-se como disciplinado servidor do gosto estÚtico de polÝticos, como os sßtrapas da Anat¾lia, e adquiriu funþ§es semelhantes Ó do engenheiro moderno. Em Roma, essa tendÛncia se acentuou. O ImpÚrio Romano, conduzido por um poder polÝtico e militar em constante expansÒo, precisava da participaþÒo dos artistas e pessoas cultas em seus empreendimentos. A cidade, como concentraþÒo urbana, adquiriu entÒo seu verdadeiro carßter. Foi cuidadosamente planejada ao redor de vias de comunicaþÒo que a ligavam a pontos cruciais dos territ¾rios ocupados. Suas construþ§es civis e religiosas, recreativas ou funcionais, conservavam uma uniformidade que remete Ó essÛncia normativa e codificadora da civilizaþÒo construÝda pelos romanos. Seus grandes monumentos, grandiosos e decorativos, eram a materializaþÒo da gl¾ria dos imperadores. O arquiteto, mais uma vez, foi relegado ao anonimato. Transformado em simples artesÒo, ou especialista em tal ou qual tarefa, sobre ele tambÚm incidiu a perda do valor artÝstico das construþ§es, cada vez mais condicionadas ao progresso da tecnologia, como o uso do cimento, que permitiu o trabalho de operßrios menos qualificados na construþÒo.

ARQUITETURA NA ANTIGUIDADE

Idade MÚdia e Renascimento

O desmembramento do ImpÚrio Romano, a ocupaþÒo da Europa ocidental pelos invasores vindos de fora do mundo civilizado e o aparecimento de novas forþas que impuseram suas idÚias polÝticas e intelectuais tiveram sÚrias conseq³Ûncias para a arquitetura medieval. Agrupadas em torno dos centros de poder religioso, as construþ§es da Idade MÚdia europÚia canalizaram as formas herdadas da tradiþÒo clßssica e, participantes das idÚias estÚticas dos povos ditos bßrbaros, criaram uma arte nova que materializou as concepþ§es econ¶micas, sociais e espirituais da Úpoca. Um rÝgido sistema hierßrquico comandou a organizaþÒo dos diferentes elementos do templo medieval. Todas as partes do edifÝcio se ordenavam de acordo com uma escala que reproduzia a estrutura polÝtica do mundo profano. A igreja desempenhou o papel de dinamizador da cultura e da arte da Úpoca.

As igrejas cristÒs resgataram muitas contribuiþ§es estÚticas e parte dos sÝmbolos da tradiþÒo pagÒ e transformaram-nos, depois de um longo processo de assimilaþÒo, em formas e elementos da ortodoxia cat¾lica. Os arquitetos dessas obras, encerrados nos focos de cultura que foram os mosteiros -- verdadeiros mananciais de conhecimentos no mundo medieval --, eram tambÚm figuras an¶nimas, s¾ conhecidas pelo nome da oficina a que pertenciam, e assistiram como meros trabalhadores braþais a seu pr¾prio trabalho arquitet¶nico, sem consideraþ§es de tipo intelectual ou social. Esses artistas, autores de edifÝcios em que Ós vezes se notam contribuiþ§es muito particulares ou pessoais, entenderam seu trabalho como uma aþÒo coletiva. Essa postura alcanþou sua expressÒo mßxima na catedral g¾tica, fruto do empenho de toda uma comunidade.

Condicionada por um espaþo e por um momento hist¾rico de dispersÒo, a arquitetura medieval nem por isso deixou de ligar-se com os centros artÝsticos europeus. Os caminhos de peregrinaþÒo aproximaram os homens de diferentes partes da Europa, dando a conhecer as novidades em forma e estilo. A mobilidade dos grandes ateliÛs fez com que transcendessem a importÔncia meramente local e possibilitou a realizaþÒo e difusÒo de obras de arte por todo o mundo ocidental. No que se refere Ó linguagem artÝstica, o estilo g¾tico, produto de uma ordem social mais aberta, deu uma resposta estÚtica Ós quest§es econ¶micas e espirituais de seu momento, em oposiþÒo Ó solidez e Ó interioridade da arquitetura romÔnica. Motor de um sistema espacial no qual o dinamismo e a leveza das estruturas e a luminosidade dos ambientes adquirem uma importÔncia ou valor revolucionßrio, a arquitetura g¾tica combinou funcionalidade e estÚtica num s¾ corpo orgÔnico, conquista s¾ reconhecida depois de sÚculos pela hist¾ria da cultura.

Separada dos canais artÝsticos medievais, a Itßlia deu inÝcio, desde o final do sÚculo XIII, a um dos momentos mais gloriosos da hist¾ria da arquitetura. A recuperaþÒo da cultura clßssica grega e latina, sua codificaþÒo e difusÒo por toda a Europa nos sÚculos seguintes representaram a transiþÒo do fen¶meno construtivo de base popular a uma nova ordem, em que o papel do arquiteto adquiriu conotaþÒo intelectual e prestÝgio social nunca alcanþados anteriormente. As cidades italianas do Renascimento se converteram nos p¾los da nova cultura e seus mßximos dirigentes, os mecenas, os motores das novas concepþ§es estÚticas criadas por seus protegidos. A alianþa entre o artista e o dirigente polÝtico teve um de seus melhores momentos no Renascimento. Os grandes nomes da arquitetura renascentista legaram ao esquecimento o trabalho coletivo e an¶nimo dos artistas medievais e se tornaram personagens centrais de um sistema em que o valor da obra de arte guardava estreita relaþÒo com o nÝvel econ¶mico ou categoria social de quem pudesse possuÝ-la. NÒo se pode esquecer tambÚm o papel desempenhado pelos progressos tÚcnicos, principalmente na ordenaþÒo e planificaþÒo das construþ§es mais que na criaþÒo de novos elementos de composiþÒo: pesquisas sobre a perspectiva, a instituiþÒo do desenho arquitet¶nico e da construþÒo de maquetes, a relaþÒo com a engenharia e a matemßtica etc. Por esse motivo, a arquitetura renascentista nÒo atingiu o esplendor e a capacidade de inovaþÒo manifestada pelos artistas g¾ticos.

Os novos artistas, cada vez mais distantes dos trabalhadores braþais e artesÒos, passaram a ser considerados criadores de beleza, capazes de aceitar todos os desafios da construþÒo religiosa ou profana. └s vezes, a funþÒo desses arquitetos se resumia ao planejamento das obras como meras estruturas que permitiam encaixar elementos de composiþÒo criados segundo os cÔnones clßssicos e, com base na perfeita coordenaþÒo e harmonia das partes, estabelecer sua visÒo pessoal de espaþo. Abria-se na tradiþÒo cristÒ o caminho para a secularizaþÒo da arte. Os sÝmbolos que regiam a mentalidade do artista do Renascimento se expressavam para um p·blico majoritariamente ignorante da antiguidade. Mero espectador at¶nito diante daquilo que lhe era oferecido, esse p·blico via afirmar-se cada dia com mais forþa a separaþÒo entre o mundo da arte e a vida real.
Sobre a arquitetura medieval e as concepþ§es artÝsticas de suas principais figuras tratam os verbetes do quadro n║ 4.

ARQUITETURA MEDIEVAL E RENASCENTISTA

Barroco e neoclassicismo

Se o predomÝnio da razÒo, o equilÝbrio e a ordem foram as bases do programa artÝstico do Renascimento, no barroco a energia incontida e a vitalidade das formas se apossaram da criaþÒo artÝstica. A Itßlia renascentista, submetida ao domÝnio dos poderes locais e familiares, intelectualizada e reduzida aos cÝrculos de iniciados na cultura clßssica, assistiu Ó transformaþÒo de seu mundo de m·ltiplas referÛncias pagÒs em outro muito diferente, absorvente e centralizador, regido pela igreja ressurgida do ConcÝlio de Trento, poderosa e triunfante. Esquecidos os perigos e vicissitudes dos sÚculos anteriores, a Igreja Cat¾lica buscava canais de expressÒo artÝstica por meio dos quais pudesse expressar seu renovado poderio e sua capacidade de colocar-se a par das potÛncias ocidentais. Roma, capital do papado, tornou-se paradigma da cidade barroca, centro para o qual afluÝam os mais importantes artistas para buscar a consagraþÒo definitiva.

A alianþa entre arquitetos e pontÝfices romanos, processo jß iniciado no Renascimento, chegou ao auge no barroco. Como Roma, as monarquias absolutistas europÚias viram nas formas e concepþ§es do novo estilo a materializaþÒo de suas idÚias sobre o poder e sobre o papel do soberano na sociedade. Assim, os monarcas absolutistas converteram-se em patrocinadores e construtores de magnÝficos palßcios e residÛncias criados dentro dos cÔnones estÚticos e formais do estilo romano, o que favoreceu a difusÒo da nova arquitetura por toda a Europa. Teatral e musical, a ordem estÚtica barroca rompeu com a frieza da norma clßssica e liberou a criaþÒo de todas as amarras e limitaþ§es. Essa liberdade resolveu-se, no que se refere Ó construþÒo, numa mudanþa do conceito de espaþo, trabalhado sem press§es, no qual eram permitidas estruturas curvilÝneas e uma multiplicidade de elementos decorativos que provocavam tens§es, fugas e desequilÝbrios no ritmo da obra.

O desmembramento do espaþo arquitet¶nico e o novo aproveitamento da luminosidade criou um jogo constante de claros-escuros que invadiu todas as superfÝcies da construþÒo, sem pejo de combinar-se com elementos de pintura e escultura criados por outros artistas, numa exaltaþÒo plßstica e visual sem precedentes. O acesso direto do espectador Ó beleza, sem nenhum processo mental prÚvio, dava-se numa atmosfera teatral, decorativa e ilus¾ria. Sua capacidade de invadir todas as formas e atitudes do homem levou o arquiteto barroco a globalizar o ato de criaþÒo, a integrar o edifÝcio num espaþo natural determinado numa relaþÒo organizada com outras construþ§es. Nessa Úpoca, os progressos do urbanismo e do paisagismo, tratados nÒo como tÚcnicas independentes mas integrados na obra final, falam de um desejo sempre presente nos artistas do sÚculo XVII: conquistar a unidade entre a arte e a realidade vital do ser humano.

└ explosÒo de vitalidade e sensibilidade do barroco, concretizaþÒo de uma sociedade disposta a todo momento ao teatral, cerimonioso e simb¾lico, o
neoclassicismo reagiu como representante da ordem e da disciplina. A razÒo, elevada Ó categoria de religiÒo pelos enciclopedistas franceses e alþada aos cumes do poder com a revoluþÒo francesa, encontrou na recuperaþÒo dos cÔnones clßssicos seu meio de expressÒo ideal. O feminino e decorativo estilo rococ¾, ·ltima fase do barroco em sua mais ostensiva manifestaþÒo do luxo e suntuosidade de uma monarquia fechada em si mesma, nÒo podia ser aceito como representaþÒo artÝstica das idÚias democratizantes que se impunham na Europa e na AmÚrica do Norte no final do sÚculo XVIII.

A busca estÚtica e filos¾fica da pureza de linhas clßssicas, de sua simplicidade original, nÒo foi mais que o resultado da mudanþa das mentalidades e das idÚias de intelectuais e eruditos da Úpoca. Arte do estudo e da reflexÒo, o neoclassicismo encontrou na ciÛncia e na cultura clßssica uma Útica pr¾pria, Ó sombra da qual dirigiu seus passos e plasmou sua concepþÒo da nova sociedade que nascia. As academias e demais instituiþ§es culturais se encarregariam mais tarde de sistematizar e dirigir a ordem cientÝfica e artÝstica que surgia desse olimpo de tÚcnica e arte. Defensores da ordem e da regra e, ao mesmo tempo, profetas de uma nova civilizaþÒo, os arquitetos neoclßssicos encontraram no impÚrio napole¶nico e no ressurgir de novos e balbuciantes nacionalismos o quadro perfeito para traduzir em imagens e formas suas idÚias estÚticas.

Da R·ssia Ó penÝnsula ibÚrica, da ┴ustria aos Estados Unidos, erigiram-se construþ§es cuja finalidade era acolher em seu interior as instituiþ§es e os chefes de uma ordem polÝtica emergente e cheia de vitalidade, fÚ e confianþa no futuro. Na ordem artÝstica, Ó austeridade formal das novas construþ§es, a sua frieza retilÝnea e Ó severidade no tratamento dos volumes, que muitas vezes anteciparam as propostas funcionalistas de Úpocas vindouras, uniu-se um gosto especial pelo tratamento dos interiores. Manifestou-se um interesse novo pelos elementos decorativos, pelo mobilißrio e pela pintura mural, que permitiu a alguns dos grandes nomes da arquitetura neoclßssica conseguirem reunir numa perfeita conjunþÒo de formas os componentes exteriores e interiores de seus conjuntos arquitet¶nicos.

ARQUITETURA BARROCA E NEOCL┴SSICA

Mundo moderno

Surgido da revoluþÒo industrial e da nova estrutura social que se imp¶s na Europa e na AmÚrica desde os meados do sÚculo XIX, o mundo moderno abandonou os princÝpios que regiam a arquitetura tradicional e se abriu para as novas concepþ§es que privilegiam o espaþo habitßvel e transcendem as quest§es meramente artÝsticas ou estÚticas. A superaþÒo dos valores econ¶micos e sociais que imperavam no antigo regime contribuiu para consolidar o papel da cidade e sua articulaþÒo como corpo vivo, com necessidades e referÛncias simb¾licas pr¾prias. Em consonÔncia com a ascensÒo social da burguesia, os antigos centros de poder foram gradativamente substituÝdos por n·cleos urbanos que abrigavam as novas forþas polÝticas, transformadas agora em juÝzes do bom-gosto e do valor da obra de arte.

Foi, no entanto, nos Estados Unidos, longe das determinaþ§es que traþaram o caminho hist¾rico percorrido pela arquitetura, que apareceram as novas formas de conceber o espaþo urbano. O arranha-cÚu e o crescimento urbano vertical tornaram-se sÝmbolos da cultura moderna. DinÔmicas e agressivas, as novas construþ§es romperam com a hierarquia de valores aceita desde a antiguidade e relegaram a segundo plano, no trabalho dos arquitetos, os demais tipos de edifÝcios, como templos, palßcios etc. Os materiais passaram a ser tratados como elementos integrantes de um mundo regido pela funcionalidade e pela soluþÒo dos problemas de habitaþÒo e conforto do conjunto da sociedade. A industrializaþÒo e o progresso tecnol¾gico fizeram com que alguns materiais, como o concreto armado e o vidro, passassem a integrar os espaþos arquitet¶nicos e mudassem o conceito segundo o qual os espaþos interno e externo sÒo compartimentos estanques e distintos. A estrutura de concreto armado favoreceu a leveza das formas e a substituiþÒo de paredes por materiais transparentes, que funcionam mais como inv¾lucros atravÚs dos quais se comunicam interior e exterior, ocupantes da construþÒo e a cidade.

A necessidade de dar credibilidade aos novos materiais e o interesse de ressaltar seu carßter primitivo e original marcaram profundamente a formaþÒo do arquiteto do sÚculo XX. A valorizaþÒo do "fato construtivo" chegou a sua expressÒo maior no processo de aboliþÒo do elemento ornamental que se seguiu ao modernismo, ·ltimo momento no qual o arquiteto sentiu-se artesÒo de sua obra. Com o lema "a decoraþÒo morreu", os arquitetos do inÝcio do sÚculo XX empreenderam o caminho da eliminaþÒo dos componentes simb¾licos e referenciais que constituÝam a obra de arte. Paredes lisas e brancas, concreto aparente e linhas s¾brias passaram a ser os princÝpios orientadores desses artistas. Os limites entre a funþÒo do arquiteto e a do engenheiro tornaram-se imprecisos, confundindo as duas profiss§es: para o engenheiro, a valorizaþÒo da materialidade do fen¶meno construtivo elevou sua criaþÒo Ó categoria de arte, demonstrando a abrangÛncia da tecnologia e da ind·stria moderna postas a serviþo da cultura. Construtor e engenheiro, o arquiteto do sÚculo XX nÒo p¶de, no entanto, abandonar seu lado artÝstico e criador. Por essa razÒo, aproximou-se muitas vezes de formas da natureza e criou estruturas orgÔnicas, ou tomou da hist¾ria da arquitetura referÛncias ou componentes estÚticos de algum perÝodo artÝstico e os introduziu com total liberdade em seus edifÝcios, ratificando o sentido da convivÛncia com o presente e dißlogo com o passado que manteve desde o inÝcio a hist¾ria da humanidade.

Quanto Ó contribuiþÒo dos grandes arquitetos e engenheiros do mundo moderno Ó arte universal e aos movimentos e escolas que influenciaram as formulaþ§es te¾ricas da arquitetura contemporÔnea.

ARQUITETURA, PAISAGISMO E URBANISMO NOS S╔CULOS XIX E XX

Culturas nÒo-ocidentais e AmÚrica prÚ-colombiana

As culturas nÒo-ocidentais, relegadas ao esquecimento pelos ditames de uma tradiþÒo can¶nica dominante, foram, apesar disso, de grande importÔncia no progresso da arquitetura universal. A diversidade de formas e estilos encontrados nos diferentes n·cleos artÝsticos nÒo-ocidentais impede a generalizaþÒo de suas propostas arquitet¶nicas. Fatores religiosos, polÝticos, econ¶micos e estratÚgicos determinaram a criaþÒo dessas comunidades, como expressÒo de uma crenþa, manifestaþÒo de poder polÝtico ou sÝmbolo de autoridade. Assim, o componente religioso foi dominante em grande parte das obras arquitet¶nicas do mundo islÔmico, enquanto nas culturas chinesa e japonesa, ao lado dos edifÝcios destinados Ós funþ§es espirituais, existem palßcios e residÛncias reais que falam do papel importante das autoridades centrais e locais para essas culturas, alÚm do domÝnio que tinham da madeira como material de construþÒo. A arquitetura indiana e a cambojana imprimiram Ó hist¾ria da arte uma forma de entender a construþÒo baseada na articulaþÒo dos componentes escult¾ricos com outros propriamente arquitet¶nicos na realizaþÒo de grandes conjuntos religiosos e polÝtico-religiosos em que transparecia a idÚia da personificaþÒo do mundo celestial.

A AmÚrica prÚ-colombiana permaneceu distante das demais culturas e plasmou, em suas criaþ§es arquitet¶nicas, um mundo de valores espirituais e sociais pr¾prio. A hierarquizaþÒo da sociedade e da vida polÝtica, que resistiu Ó sucessÒo de diferentes impÚrios e civilizaþ§es, determinou a criaþÒo de espaþos urbanos e arquitet¶nicos que manifestavam a grandeza das classes sociais dominantes e o controle que exerciam sobre a populaþÒo. As estruturas piramidais e seus edifÝcios destinados a usos m·ltiplos sÒo testemunhas do grande progresso tÚcnico, artÝstico e institucional a que chegaram povos de vastas regi§es da AmÚrica, principalmente no centro e na zona andina do continente, e atestam a grandeza de civilizaþ§es mergulhadas num meio Ós vezes hostil, do qual tiraram proveito com o brilho que se conhece.

A arquitetura oriental se desenvolveu segundo seus pr¾prios valores, um tanto diferentes dos que se verificaram no Ocidente. Algumas de suas principais caracterÝsticas, como o telhado encurvado, nÒo sÒo encontradas em nenhuma outra tendÛncia arquitet¶nica. Os materiais usados tradicionalmente na arquitetura chinesa, japonesa ou coreana, como bambu e madeira, eram bem pouco s¾lidos e por isso as construþ§es mais antigas desapareceram. A partir de certo ponto, melhoradas as tÚcnicas de construþÒo, Ú possÝvel acompanhar a seq³Ûncia hist¾rica dessa arte no Oriente. Vßrias escolas, que correspondiam a situaþ§es sociais e culturais muito diferentes, estenderam suas concepþ§es estÚticas Ó arquitetura, que ganhou contribuiþ§es sucessivas de diferentes elementos decorativos e concepþ§es de distribuiþÒo do espaþo, correspondentes aos usos a que estavam destinadas as construþ§es.

Nota-se uma progressiva utilizaþÒo de materiais que permitiam enfrentar obras de maior envergadura. Ligada, como no Ocidente, Ós concepþ§es religiosas e polÝticas de cada momento, a arquitetura oriental ergueu gigantescos pagodes e palßcios, alguns dos quais, apesar de estarem em ruÝnas, dÒo mostras do esplendor alcanþado em certas fases da hist¾ria do grupo social que empreendeu sua construþÒo. Exemplos disso sÒo os palßcios da Cidade Proibida de Beijing (Pequim) ou os pagodes de Todai-ji, em Nara, e de Rokuon-ji, em Quioto. Um elemento caracterÝstico da arquitetura chinesa que convÚm mencionar Ú o pai-lu, espÚcie de arco do triunfo formado de vßrios umbrais. No JapÒo, a turbulenta hist¾ria das guerras de clÒs que deu origem ao paÝs estß claramente representada na arquitetura. Palßcios fortificados como os de Azuchi e Himeji, dotados de muralhas protetoras e altÝssimas torres de vigilÔncia, sÒo exemplos disso.

Foi exatamente o emprego da madeira como material arquitet¶nico e decorativo que deu maior originalidade Ós construþ§es orientais. Sua presenþa na decoraþÒo de palßcios e pagodes Ú especialmente significativa. Os elementos de algumas dessas construþ§es, como os artes§es e colunas dos palßcios de Horyu-ji e Toshodai-ji sÒo de singular beleza. NÒo faltam a esses conjuntos decorativos nem talhas, nem policromia ou outros motivos ornamentais, que formam um todo harm¶nico de grande elegÔncia, reflexo do ritmo pausado dos costumes domÚsticos orientais.
A arquitetura moderna desses paÝses, mesmo guardando semelhanþas com as formas arquitet¶nicas precedentes, tornou-se mais acomodada e funcional. A residÛncia japonesa contemporÔnea conserva elementos de composiþÒo tradicionais e o emprego decorativo de materiais como a madeira, o papel e o bambu continua sendo habitual. A influÛncia da arquitetura funcional do Ocidente, no entanto, Ú visÝvel, e entre os arquitetos japoneses se encontram alguns dos nomes mais respeitados da arquitetura moderna.

A arquitetura de influÛncia indiana apresenta uma evoluþÒo diferente. Na pr¾pria ═ndia, no Sri-Lanka, em Myanmar e na TailÔndia, os elementos mais caracterÝsticos dos templos budistas -- os stupas -- sÒo vistos por toda parte.

ARQUITETURA E ARTE PR╔-COLOMBIANAS E DE POVOS N├O-OCIDENTAIS

Nesse sentido, deve ser tratado como problema de segunda ordem a ancestral contraposiþÒo entre arquitetura e construþÒo. As estruturas mais precßrias de proteþÒo do homem primitivo jß encerravam a funþÒo primordial da obra arquitet¶nica, independentemente de seu valor estÚtico ou tecnol¾gico. Paralelamente, os monumentos erigidos ao longo de toda a hist¾ria revertem sua dimensÒo artÝstica Ó funþÒo de albergue e local de reuniÒo da comunidade. Tal Ú a autÛntica dimensÒo em que se expressa a arquitetura como manifestaþÒo s¾bria ou extravagante, funcional ou vanguardista, de civilizaþ§es e culturas de todas as Úpocas.


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