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Borboletas e mariposas


 Artrópodes

Confundidas muitas vezes por suas semelhanças, as borboletas e as mariposas diferem essencialmente em três aspectos: as borboletas somente voam de dia, e as mariposas, em sua quase totalidade voam de noite; se as borboletas são graciosas, leves e suas asas apresentam colorido agradável, as mariposas têm asas de um aveludado escuro e pesado; e enquanto existem apenas 16 famílias de borboletas, há mais de cem famílias de mariposas, algumas com mais de mil espécies.

As borboletas e mariposas pertencem à ordem dos lepidópteros, uma das maiores ordens de insetos, com mais de cem mil espécies espalhadas por todas as partes do mundo onde existem flores e árvores. O termo lepidóptero vem do grego lepis, lepidis, "escama", e pteros, "asa", pois efetivamente as asas de ambas são em geral revestidas de pequeninas escamas, semelhantes a um pó colorido.

O corpo das borboletas e mariposas divide-se em cabeça, tórax e abdome. Muitas espécies alimentam-se do néctar das flores, e por isso dispõem de um tubo em vez de boca, enrolado no alto da cabeça, o qual se desenrola como uma mola, até chegar ao fundo das flores, para absorver o néctar ou beber água. Na cabeça têm também antenas, pelas quais elas não apenas sentem os objetos, como também captam odores e, principalmente nas mariposas noturnas, vibrações sonoras, como se fosse um radar. Os três pares de patas e os dois pares de asas são presos ao tórax, atrás do qual o abdome segmentado se projeta como uma cauda alongada. As patas são finas e frágeis, e servem muito mais para sustentar o corpo do inseto quando em repouso do que para caminhar. Os dois pares de asas -- duas anteriores e duas posteriores -- movem-se sincronicamente de cada lado. Nas mariposas, a uniformidade desse movimento é assegurada por um sistema de engate constituído por cerdas. A maioria das mariposas tem um sistema para acoplar a asa anterior com a posterior, ausente nas borboletas. Em geral, a superfície total das asas ultrapassa em muito a do corpo.

Os lepidópteros variam extraordinariamente de tamanho, desde as minúsculas traças, cujas larvas vivem entre as pétalas e folhas, e que geralmente não medem de uma ponta a outra das asas mais de dois a três milímetros, até à gigantesca mariposa agripina, que chega a atingir mais de 35cm com as asas abertas. Quanto ao colorido, as borboletas não só apresentam todas as variações da escala cromática como também qualquer combinação que se possa imaginar. Os efeitos coloridos das asas devem-se à constituição das escamas e em parte à própria cor das mesmas, especialmente o azul. Embora existam numerosas borboletas azuis, não há qualquer pigmento azul nas escamas: os diferentes tons e matizes azulados devem-se exclusivamente à maneira como as escamas refletem a luz, graças à sua estrutura complexa. Em muitas espécies, as asas do macho apresentam cor e tamanho diferentes das da fêmea, ou o macho apresenta asas normais, enquanto a fêmea é áptera, isto é, sem asas. Além disso, quando nascem várias gerações em um mesmo ano, uma borboleta nascida no fim do verão pode diferir um pouco em tamanho e cor de seus antepassados nascidos no começo da primavera, e de seus pais nascidos no início do verão.


Fases do ciclo vital

Durante a vida, a fêmea da borboleta põe de sessenta a várias centenas de ovos, geralmente verdes, algumas vezes amarelos, e ocasionalmente vermelhos ou azuis. Quase sempre apresentam em sua superfície desenhos característicos de cada espécie ou grupo de espécies. Devido ao tamanho extremamente reduzido dos ovos, esses desenhos só podem ser observados com uma lente ou microscópio. A borboleta coloca os ovos em uma planta capaz de servir de alimento às larvas, que nascerão dentro de um tempo determinado, variável segundo as espécies, mas que geralmente não excede trinta dias.

As minúsculas larvas, denominadas lagartas, em sua grande maioria são fitófagas, isto é, alimentam-se de folhas; mas há também as que são carpófagas (comem frutos) ou xilófagas (comem madeira). Em qualquer caso, as lagartas são comedoras vorazes e crescem rapidamente, até o limite propiciado por sua pele, quando então se revestem de novo envoltório, mudando de pele mais umas seis ou sete vezes, até chegarem à fase de lagarta adulta. Param então de alimentar-se e transformam-se em crisálidas. As crisálidas das borboletas geralmente ficam expostas, sustentadas por uma pequena placa de seda, ou por uma espécie de filamento de seda que as mantém em posição vertical. Já as crisálidas das mariposas, em sua maioria, são protegidas por um casulo sedoso, tecido pela própria lagarta, ou ficam enterradas.

As crisálidas vivem assim por algum tempo, enquanto se processa sua transformação em borboleta ou em mariposa, conforme o caso. Completada a transformação, o invólucro se fende, ou rompe-se o casulo, deixando sair um inseto de seis patas e antenas dirigidas para a frente, que caminha um pouco, até alcançar um ramo, onde fica pousado, movendo suavemente as asas, que vão se estendendo aos poucos e tomando as cores típicas da espécie, enquanto as nervuras e membranas se enrijecem. Uma vez firmes e secas as asas, o inseto lança-se ao vôo, e nesse estágio recebe o nome de imago. Muitas borboletas e mariposas nascem de ovos postos na primavera ou verão, comem e crescem como lagartas e transformam-se em crisálidas no começo do outono, e nesse estado passam todo o inverno. Na primavera seguinte, as mariposas surgem de seus casulos e as borboletas de suas crisálidas, para começarem uma nova geração.

Esse esquema, porém, não é geral e varia segundo as latitudes. Há uma espécie, por exemplo, que tem duas ou três gerações nas zonas tropicais, mas à medida que se distancia dos trópicos passa para apenas duas. Suas lagartas vivem associadas em uma espécie de teia coletiva e se dispersam quando chega o momento de se transformarem em crisálidas. As mariposas da segunda geração põem os ovos envoltos numa espécie de felpa tecida com os pêlos do abdome da fêmea. A espécie passa o inverno sob a forma de ovo. Suas lagartas, que são grandes furadoras de árvores, passam dois anos no interior dos troncos, devorando a madeira resultante de sua perfuração.


Coloração

As cores das asas das borboletas e mariposas muitas vezes servem para ocultá-las, por meio de mimetismo, isto é, por serem semelhantes às cores de seu meio, tornando-as pouco visíveis. Muitas espécies de mariposas da América do Sul têm as asas de brilhantes cores avermelhadas, amarelas ou azuis, mas quando pousam, fecham as asas e tomam o aspecto de uma folha seca, semelhança grandemente reforçada pela própria forma das asas que terminam em uma espécie de cauda parecida com a haste da folha. Há ainda uma linha escura que atravessa transversalmente as duas asas e termina nessa cauda, simulando uma nervura. Para completar o mimetismo, a asa anterior apresenta um ponto transparente, semelhante a um orifício de folha seca. Mas não são todas as espécies que possuem tais características. Algumas borboletas, ao contrário, possuem cores vivas, que se mostram claramente mesmo quando estão pousadas.

As mais belas borboletas da América são do gênero Morpho, grandes borboletas exclusivas das zonas tropicais e subtropicais do continente, e que chegam a medir até 15cm de uma ponta a outra das asas. São em sua maioria azuis, de um azul-celeste metálico brilhante que pode mostrar-se irisado em certas posições do observador. Voam sempre alto entre as árvores da floresta, numa altura média de dez metros,  e só descem para sugar o sumo das frutas caídas ou dos animais mortos e em estado de decomposição. Suas lagartas geralmente são um tanto pálidas, de cores brilhantes e com dois prolongamentos na cabeça, dirigidos para a frente. Outro gênero de borboleta muito bonita é Agrias, também exclusivo do continente americano e que apresenta nas asas anteriores uma grande mancha, de cor vermelho-sangue, precedida de faixas de cor azul-celeste. Tanto as do gênero Morpho quanto as do Agrias são muito procuradas pelos caçadores de borboletas, que produzem com suas asas coloridas objetos decorativos, ou negociam com os colecionadores.


Hábitos

Cada espécie de borboleta ou mariposa tem hábitos característicos. Umas voam continuamente pelos campos e ramos das árvores, ou em torno das flores. Muitas, mesmo pousadas, continuam a bater as asas, prontas para reiniciar o vôo. Outras executam vôos curtos, por vezes muito rápidos, passando de uma flor a outra, em busca de lugares úmidos ou frutos amadurecidos. Algumas ficam imóveis por tempo considerável, como que aguardando o chamado do outro sexo ou a percepção do cheiro de substância que lhe sirva de alimento. Os machos de algumas espécies de borboletas têm o hábito de se perseguirem constantemente, dando repetidos estalos com as asas, pelo que em alguns lugares essas borboletas são chamadas de estaladeiras.

Muitas borboletas de médio e pequeno porte fazem, ao pousar, uma rápida manobra, colocando-se de asas abertas na face inferior das folhas, em direção exatamente oposta à do vôo, para assim se esconderem de predadores. Há ainda borboletas que, ao raiar ou findar o dia, voam com saltos rápidos entre a vegetação. Já entre as mariposas, cuja principal característica é só voar à noite, há também espécies diurnas, que apresentam hábitos semelhantes aos dos beija-flores. Em geral as mariposas diurnas pousam para descansar em pontas secas de galhos verticais.

As grandes mariposas, que, pelas manchas e desenhos das asas, assemelham-se a folhas, pousam de asas abertas e na inclinação adequada; outras ainda buscam, nas cascas das árvores, as superfícies musgosas, com as quais se confundem. Quando uma mariposa grande é molestada, deixa-se cair ao solo e se aquece vibrando as asas por cerca de trinta segundos antes de levantar vôo. As mariposas noturnas voam a noite inteira, as fêmeas buscando alimento, os machos em busca das fêmeas.


Alimentação

Todas as borboletas se alimentam, ao contrário das mariposas, das quais muitas espécies não se alimentam na fase adulta. Esse é o caso, por exemplo, do bicho-da-seda, espécie de mariposa cujo indivíduo adulto possui o aparelho bucal atrofiado, portanto impróprio à alimentação, e vive à custa das reservas feitas durante a fase de lagarta. No entanto, muitas mariposas possuem tromba funcional, que aspira néctares, sucos e líquidos orgânicos ou fermentados. Algumas perfuram cascas moles de frutos de interesse econômico, como goiabas ou nêsperas, danificando-os e tornando-os impróprios ao consumo.

Em sua maioria as pragas agrícolas são lagartas de mariposas, que ou devoram diretamente as folhas das plantas ou são brocas dos troncos, bulbos e folhas, em que abrem galerias, como é o caso do bicho-mineiro (Leucoptera coffeella), que ataca as folhas do cafeeiro. Algumas mariposas põem seus ovos nos brotos de plantas, onde as larvas provocam um tumor oco, dentro do qual vivem roendo a superfície interna. As borboletas, preferem as flores. Tão logo pousam nas pétalas, desenrolam a tromba e a enfiam pelas corolas, buscando líquidos ou néctares. Quando buscam alimento nas areias úmidas, ou nos frutos fermentados, aspiram o líquido com a tromba distendida. Geralmente as flores são mais freqüentadas pelas borboletas fêmeas, enquanto os machos procuram líquido em areias úmidas.

Pela observação dos hábitos alimentares das borboletas é que os caçadores preparam iscas, como bananas amassadas em caldo de cana e misturadas com fermento de padaria, que são dependuradas em saquinhos de pano nas beiradas das clareiras e florestas. Muitas espécies de borboletas vêm pousar nessas iscas e sorvem tal quantidade do líquido fermentado que ficam embriagadas e podem ser capturadas facilmente com a mão.

Além desse processo, os caçadores costumam andar pelas beiras das estradas, clareiras, canteiros ou caminhos do mato, pois sabem que as borboletas estarão fatalmente buscando alimento nas flores. Nesse caso, utilizam redes de filó, especialmente de náilon, que têm a vantagem de não reter água quando molhadas. As redes têm cerca de quarenta centímetros de diâmetro na boca e não devem ser afuniladas, para evitar que as borboletas quebrem as asas, debatendo-se no fundo da rede. Costuma-se dar preferências às redes azuis, pois qualquer outra cor, em particular o branco, assusta as borboletas de longe. O cabo da rede pode variar de dois a cinco metros ou mais, conforme a altura em que voam as espécies que se deseja capturar.


Borboletas e folclore

É notável a presença da borboleta e da mariposa no imaginário popular. Em geral, as borboletas de cores claras prenunciam notícias felizes, de chegada de parentes ou pessoas amadas, ou de fortuna. Uma mesma palavra grega, psiké, define ao mesmo tempo borboleta, espírito e alma. As mariposas, especialmente as de cor negra, trazem sempre presságios funestos, e são consideradas mensageiras da morte. Em muitas partes do Brasil são chamadas de "bruxas". Em Portugal, Espanha e Itália, são conhecidas como "coisa má". No interior da França, é a alma do morto que faz penitência. No interior da Inglaterra, é o espírito da criança que morreu sem ser batizada. Na Rússia, é a mensageira do infortúnio. Na China, é aviso da morte, evitada com orações e sacrifícios. Para os orientais em geral, é a alma dos mortos, que traz recados do outro mundo. Na Pérsia, representava também o espírito dos mortos. Para os antigos egípcios, o espírito deixava o corpo, na hora da morte, em forma de borboleta. Além dessas representações, a borboleta pode também simbolizar a idéia de liberdade, principalmente dos indivíduos mais frágeis. Ou pode significar a idéia de inconstância ou de frivolidade, como a da mulher que está sempre em busca de novos amores.