Arquitetura e urbanismo - BioMania
O melhor portal biológico da internet!



Arquitetura e urbanismo


 Histologia

O desenvolvimento psicossocial dos seres humanos ao longo de toda sua história foi condicionado, em grande medida, pela oposição entre a natureza e o homem. A resposta aos estímulos proporcionados pelo meio e a capacidade de encontrar soluções práticas para os problemas de defesa e reprodução da espécie se expressam de maneira singular na arquitetura. A procura instintiva de um refúgio para se proteger e estabelecer um grupo deu lugar, depois de um árduo processo evolutivo, à criação de estruturas artificiais construídas pela mão do homem. Erigidas de início com materiais obtidos diretamente da natureza e sem transformação, essas estruturas evoluíram para novas formas, já distantes dos abrigos primitivos, cuja função já não se limitava ao fato de serem habitáveis.
O desenvolvimento intelectual e social do ser humano, sua capacidade de enfrentar a morte, de promover a veneração ou adoração de si mesmo, de sentir-se admirado e mesmo de afirmar seu poder no interior de um grupo social, além da satisfação de necessidades cada vez mais requintadas, foram as causas da diversidade de formas assumidas pelas edificações que iam definindo novos espaços.
A arquitetura não seria um elemento dinâmico tão importante se não estivesse conjugada à sensibilidade artística que faz parte da inteligência humana. Expressão do ser sensível, a arquitetura constrói com a matéria, criando beleza, ordem e harmonia. Interage e brinca com o espaço, isola ou integra o homem, esmagando-o ou escolhendo-o para centro e chave da composição. A arquitetura é também um diálogo com a natureza, com os componentes físicos da Terra, numa relação às vezes difícil e mesmo dramaticamente resolvida. Simbólica ou funcional, pessoal ou integradora de uma sociedade, aberta ou fechada em si mesma, a arquitetura envolve uma prática criativa, essencialmente humana, e sensorial.
Técnicas e tipologias arquitetônicas
Os espaços habitáveis, ou as formas e estruturas simbólicas construídas pelo homem, são fruto de variáveis culturais, sociais e ideológicas que formam uma mentalidade e dependem, em primeira instância, dos materiais disponíveis e do ambiente em que o construtor vai criar sua obra.
No alvorecer da realização arquitetônica, a necessidade de erigir construções perenes estimulou a procura de materiais estáveis e duráveis, que permitissem uso prolongado e, dependendo do valor simbólico da construção, que despertassem no observador as sensações adequadas. De forma análoga, a relação homem-ambiente, ou seja, a existência de condicionantes físicos e climáticos, foi um dos fatores básicos da evolução da obra arquitetônica.
Desde os tempos mais remotos, a terra serviu como elemento principal na construção, por ser facilmente encontrável e manipulável e também pela diversidade de formas e usos que confere aos produtos a que serve de matéria-prima. A taipa, massa que se obtém da mistura de argila, água e palha, e produtos mais elaborados como os tijolos são alguns dos materiais mais utilizados na construção. Outros elementos da natureza, como a pedra e a madeira, sob diversas formas e variedades, são tidos como materiais básicos da arquitetura. A esses o homem acrescentou outros materiais, produtos do desenvolvimento tecnológico, que pouco a pouco se integraram a nossa cultura
O ferro e outros metais, cujo emprego revolucionou as técnicas de construção praticadas no século XIX; o vidro, que permitiu a criação de obras arquitetônicas cheias de luz, substituiu as paredes e integrou os espaços internos e externos de um edifício; o cimento armado; o plástico e outros materiais cuja simplicidade e rapidez no uso abriram um novo leque de possibilidades de utilização, ampliaram os limites da produção arquitetônica e derrubaram todas as barreiras impostas à criatividade e à expressão artística na construção.
A sistematização e diversificação dos elementos que integram a construção, adaptados dos materiais obtidos da natureza -- a coluna como resultado da transformação da árvore que sustentava o teto das moradias -- ou de processos técnicos -- arcos, cúpulas e outros -- e mesmo como resposta a questões intelectuais ou simbólicas -- a abóbada como representação do céu -- constituem uma parte importante dos estudos sobre o fato arquitetônico e fator imprescindível para conhecer a evolução artística das diferentes culturas.
Não se pode esquecer que a adaptação ao meio físico e climático em que um grupo está situado condiciona de maneira decisiva a criação artística. Aos fatores físicos que condicionam o construtor, como por exemplo a maior ou menor dificuldade para erguer uma construção ou a existência dos materiais necessários à realização da obra, se acrescentam os fatores climáticos. O calor, a chuva e a luminosidade condicionam e determinam a configuração e características particulares de uma obra arquitetônica.
A partir do que se disse acima, pode-se inferir a diversidade e a multiplicidade das questões que constituem o saber arquitetônico como entidade uniforme. Dada a complexidade de algumas noções envolvidas no estudo da evolução e traços característicos de cada tendência, a arquitetura não se enquadra numa definição estrita, mas, como toda arte, está aberta a possibilidades praticamente infinitas.
Para a análise detalhada de alguns elementos de composição arquitetônica, vejam-se os verbetes relacionados no quadro nº 1.

COMPOSIÇÃO ARQUITETÔNICA
A criação de edifícios está sujeita à dualidade do ser humano, no qual se conjugam a necessidade prática e o impulso artístico e intelectual. Para dar resposta às duas atitudes, tanto os artistas anônimos quanto os grandes nomes da arquitetura universal erigiram suas obras e deram sua contribuição à evolução do gosto e à estética. Por esse motivo, na arquitetura o elemento simbólico tem mais peso que em outras artes. Os símbolos religiosos e sociais, lugares onde o homem se dedica à procura de si mesmo, de seu semelhante ou de Deus; os símbolos do poder -- é notável a vinculação que muitos arquitetos mantiveram com as autoridades políticas de um grupo social --; ou as meras formas construídas que existem por si mesmas, em sua necessidade de erigir-se diante dos homens e criar referências que o ajudem a pensar sua existência, são todos expressões da necessidade sempre latente de procurar soluções para as necessidades psicológicas e sociais dos seres humanos.
A ligação com outras disciplinas científicas e ramos das artes também ocorre de maneira acentuada na arquitetura. Sua associação com a engenharia possibilitou elevar a qualidade técnica das construções e ampliar as dimensões práticas e funcionais delas. De forma análoga, o artista plástico, criador de formas e imagens, se relaciona estreitamente com o arquiteto e chega, muitas vezes, a confundir-se com ele. Com o urbanismo, a arquitetura assumiu um papel social e procurou outros ramos da ciência, como a sociologia, a ecologia e o modo de ampliar seus conhecimentos sobre os fenômenos urbanos.
Os tipos de construção, sua descrição e evolução histórica se acham tratados nos verbetes relacionados no quadro nº 2.

DESENVOLVIMENTO DOS MODELOS ARQUITETÔNICOS
Evolução histórica: o mundo antigo
Não se pode dizer que fossem obras arquitetônicas os primeiros espaços habitáveis utilizados pelo homem primitivo. A busca de um refúgio natural para proteger-se é mais próxima dos comportamentos animais que de uma conduta propriamente humana e criativa. O surgimento da construção, atrasado em relação a outras manifestações artísticas, como a pintura, só se verificou no neolítico, quando convergiram os dois impulsos básicos que determinaram o aparecimento da arquitetura na história da cultura: a necessidade de construir moradias e o desejo de erigir monumentos simbólicos ou espirituais. Os monumentos megalíticos ilustram bem o segundo caso.
Na cultura mesopotâmica que se desenvolveu entre os séculos IV e I a.C., o elemento político e religioso atingiu uma nova e extraordinária importância. A civilização surgida entre os rios Tigre e Eufrates hierarquizou os elementos da construção e, como resultado de uma ordem centralizada, recriou em seus projetos urbanísticos, nos templos em forma de pirâmides e em suntuosos palácios as formas que se tornariam características daquela civilização. Os arquitetos da Mesopotâmia, ante a impossibilidade de trabalhar com materiais como a pedra e a madeira, produziram uma arte escorada no tijolo, elemento com o qual criaram estruturas e formas artísticas de grande beleza. A arquitetura mesopotâmica, no entanto, ao mesmo tempo frágil e grandiosa, não resistiu à passagem do tempo.
A história da arquitetura do Egito antigo se confunde com a história de uma das mais importantes culturas do mundo antigo. Símbolo de poder, a criação oficial do Egito se ligava ao culto da personalidade do faraó, personificação da autoridade religiosa e política numa só pessoa. A pedra, eterna e firme como o soberano, era empregada sob diversas formas: profusamente trabalhada, serviu como suporte e material decorativo; permitiu coibir a atuação dos sacrílegos que tentavam violar os túmulos reais; e foi a base sobre a qual se gravaram os hieróglifos que eternizaram a vida social, espiritual e política dos egípcios. Essas grandiosas construções se erigiram no anonimato: foram obras de uma sociedade que obedecia a um deus supremo e o venerava. Raríssimas vezes se conhecia pelo nome o arquiteto, que não passava de um serviçal do verdadeiro autor da obra: o faraó. Mais mestres-de-obras que arquitetos, mais súditos que artistas, os construtores egípcios erigiram suas obras para a imortalidade, pois romperam com a escala humana para erguer monumentos nos quais o trabalho a empregar era incalculável e a duração do reinado do faraó era a única medida de tempo estabelecida. O Egito edificado para os homens, de casas de barro e palha, desapareceu ou deixou raros vestígios. As criações arquitetônicas que restaram continuam a exibir a intemporalidade que caracterizou sua criação.
A Grécia rompeu radicalmente com essa concepção de criação arquitetônica. O homem grego já não era entendido como realidade física submissa ao poder político e religioso. O ser humano forjava então sua própria essência, social e individual, e descobria que o ato de pensar, a criatividade e o desejo de beleza obedeciam a uma ordem, a uma harmonia e a uma capacidade de relacionar-se com a natureza e com o mais recôndito de si mesmo. Em Creta já se havia definido uma nova maneira de conceber o homem, o que pode ser comprovado pelos restos arqueológicos e pela reconstituição dos palácios minóicos, mas foi na Grécia que se determinou todo o valor social da cultura. A civilização helênica descobriu a função do arquiteto. Este, protegido por filósofos e intelectuais, com quem compartilhava o gosto pelos números e pela geometria, não criou obras para um poder absoluto, mas para a comunidade, para um grupo social. A própria sociedade se via plasmada na obra do artista, a quem ela impôs a escala humana, sua própria medida. As construções urbanas não obedeciam a um esquema simétrico e ordenado: eram obras únicas, com personalidade própria. Como seus criadores, a sociedade expressa pela mão do arquiteto buscava a pluralidade e uma ordem harmoniosa. Por todos esses motivos, as ordens clássicas, longe de serem modelos determinantes, se configuravam como regras gerais que orientavam a singularidade e a variedade da criação arquitetônica.

Durante o período helenístico, o arquiteto começou a manifestar-se como disciplinado servidor do gosto estético de políticos, como os sátrapas da Anatólia, e adquiriu funções semelhantes à do engenheiro moderno. Em Roma, essa tendência se acentuou. O Império Romano, conduzido por um poder político e militar em constante expansão, precisava da participação dos artistas e pessoas cultas em seus empreendimentos. A cidade, como concentração urbana, adquiriu então seu verdadeiro caráter. Foi cuidadosamente planejada ao redor de vias de comunicação que a ligavam a pontos cruciais dos territórios ocupados. Suas construções civis e religiosas, recreativas ou funcionais, conservavam uma uniformidade que remete à essência normativa e codificadora da civilização construída pelos romanos. Seus grandes monumentos, grandiosos e decorativos, eram a materialização da glória dos imperadores. O arquiteto, mais uma vez, foi relegado ao anonimato. Transformado em simples artesão, ou especialista em tal ou qual tarefa, sobre ele também incidiu a perda do valor artístico das construções, cada vez mais condicionadas ao progresso da tecnologia, como o uso do cimento, que permitiu o trabalho de operários menos qualificados na construção.
Os aspectos artísticos e algumas das grandes obras das antigas civilizações, exemplo do esplendor da arquitetura na antiguidade, são tratados nos verbetes do quadro nº 3.

ARQUITETURA NA ANTIGUIDADE
Idade Média e Renascimento
O desmembramento do Império Romano, a ocupação da Europa ocidental pelos invasores vindos de fora do mundo civilizado e o aparecimento de novas forças que impuseram suas idéias políticas e intelectuais tiveram sérias conseqüências para a arquitetura medieval. Agrupadas em torno dos centros de poder religioso, as construções da Idade Média européia canalizaram as formas herdadas da tradição clássica e, participantes das idéias estéticas dos povos ditos bárbaros, criaram uma arte nova que materializou as concepções econômicas, sociais e espirituais da época. Um rígido sistema hierárquico comandou a organização dos diferentes elementos do templo medieval. Todas as partes do edifício se ordenavam de acordo com uma escala que reproduzia a estrutura política do mundo profano. A igreja desempenhou o papel de dinamizador da cultura e da arte da época. As igrejas cristãs resgataram muitas contribuições estéticas e parte dos símbolos da tradição pagã e transformaram-nos, depois de um longo processo de assimilação, em formas e elementos da ortodoxia católica. Os arquitetos dessas obras, encerrados nos focos de cultura que foram os mosteiros -- verdadeiros mananciais de conhecimentos no mundo medieval --, eram também figuras anônimas, só conhecidas pelo nome da oficina a que pertenciam, e assistiram como meros trabalhadores braçais a seu próprio trabalho arquitetônico, sem considerações de tipo intelectual ou social. Esses artistas, autores de edifícios em que às vezes se notam contribuições muito particulares ou pessoais, entenderam seu trabalho como uma ação coletiva. Essa postura alcançou sua expressão máxima na catedral gótica, fruto do empenho de toda uma comunidade.
Condicionada por um espaço e por um momento histórico de dispersão, a arquitetura medieval nem por isso deixou de ligar-se com os centros artísticos europeus. Os caminhos de peregrinação aproximaram os homens de diferentes partes da Europa, dando a conhecer as novidades em forma e estilo. A mobilidade dos grandes ateliês fez com que transcendessem a importância meramente local e possibilitou a realização e difusão de obras de arte por todo o mundo ocidental. No que se refere à linguagem artística, o estilo gótico, produto de uma ordem social mais aberta, deu uma resposta estética às questões econômicas e espirituais de seu momento, em oposição à solidez e à interioridade da arquitetura românica. Motor de um sistema espacial no qual o dinamismo e a leveza das estruturas e a luminosidade dos ambientes adquirem uma importância ou valor revolucionário, a arquitetura gótica combinou funcionalidade e estética num só corpo orgânico, conquista só reconhecida depois de séculos pela história da cultura.
Separada dos canais artísticos medievais, a Itália deu início, desde o final do século XIII, a um dos momentos mais gloriosos da história da arquitetura. A recuperação da cultura clássica grega e latina, sua codificação e difusão por toda a Europa nos séculos seguintes representaram a transição do fenômeno construtivo de base popular a uma nova ordem, em que o papel do arquiteto adquiriu conotação intelectual e prestígio social nunca alcançados anteriormente. As cidades italianas do Renascimento se converteram nos pólos da nova cultura e seus máximos dirigentes, os mecenas, os motores das novas concepções estéticas criadas por seus protegidos. A aliança entre o artista e o dirigente político teve um de seus melhores momentos no Renascimento. Os grandes nomes da arquitetura renascentista legaram ao esquecimento o trabalho coletivo e anônimo dos artistas medievais e se tornaram personagens centrais de um sistema em que o valor da obra de arte guardava estreita relação com o nível econômico ou categoria social de quem pudesse possuí-la. Não se pode esquecer também o papel desempenhado pelos progressos técnicos, principalmente na ordenação e planificação das construções mais que na criação de novos elementos de composição: pesquisas sobre a perspectiva, a instituição do desenho arquitetônico e da construção de maquetes, a relação com a engenharia e a matemática etc. Por esse motivo, a arquitetura renascentista não atingiu o esplendor e a capacidade de inovação manifestada pelos artistas góticos. Os novos artistas, cada vez mais distantes dos trabalhadores braçais e artesãos, passaram a ser considerados criadores de beleza, capazes de aceitar todos os desafios da construção religiosa ou profana. Às vezes, a função desses arquitetos se resumia ao planejamento das obras como meras estruturas que permitiam encaixar elementos de composição criados segundo os cânones clássicos e, com base na perfeita coordenação e harmonia das partes, estabelecer sua visão pessoal de espaço. Abria-se na tradição cristã o caminho para a secularização da arte. Os símbolos que regiam a mentalidade do artista do Renascimento se expressavam para um público majoritariamente ignorante da antiguidade. Mero espectador atônito diante daquilo que lhe era oferecido, esse público via afirmar-se cada dia com mais força a separação entre o mundo da arte e a vida real.
Sobre a arquitetura medieval e as concepções artísticas de suas principais figuras tratam os verbetes do quadro nº 4.

ARQUITETURA MEDIEVAL E RENASCENTISTA
Barroco e neoclassicismo
Se o predomínio da razão, o equilíbrio e a ordem foram as bases do programa artístico do Renascimento, no barroco a energia incontida e a vitalidade das formas se apossaram da criação artística. A Itália renascentista, submetida ao domínio dos poderes locais e familiares, intelectualizada e reduzida aos círculos de iniciados na cultura clássica, assistiu à transformação de seu mundo de múltiplas referências pagãs em outro muito diferente, absorvente e centralizador, regido pela igreja ressurgida do Concílio de Trento, poderosa e triunfante. Esquecidos os perigos e vicissitudes dos séculos anteriores, a Igreja Católica buscava canais de expressão artística por meio dos quais pudesse expressar seu renovado poderio e sua capacidade de colocar-se a par das potências ocidentais. Roma, capital do papado, tornou-se paradigma da cidade barroca, centro para o qual afluíam os mais importantes artistas para buscar a consagração definitiva. A aliança entre arquitetos e pontífices romanos, processo já iniciado no Renascimento, chegou ao auge no barroco. Como Roma, as monarquias absolutistas européias viram nas formas e concepções do novo estilo a materialização de suas idéias sobre o poder e sobre o papel do soberano na sociedade. Assim, os monarcas absolutistas converteram-se em patrocinadores e construtores de magníficos palácios e residências criados dentro dos cânones estéticos e formais do estilo romano, o que favoreceu a difusão da nova arquitetura por toda a Europa. Teatral e musical, a ordem estética barroca rompeu com a frieza da norma clássica e liberou a criação de todas as amarras e limitações. Essa liberdade resolveu-se, no que se refere à construção, numa mudança do conceito de espaço, trabalhado sem pressões, no qual eram permitidas estruturas curvilíneas e uma multiplicidade de elementos decorativos que provocavam tensões, fugas e desequilíbrios no ritmo da obra. O desmembramento do espaço arquitetônico e o novo aproveitamento da luminosidade criou um jogo constante de claros-escuros que invadiu todas as superfícies da construção, sem pejo de combinar-se com elementos de pintura e escultura criados por outros artistas, numa exaltação plástica e visual sem precedentes. O acesso direto do espectador à beleza, sem nenhum processo mental prévio, dava-se numa atmosfera teatral, decorativa e ilusória. Sua capacidade de invadir todas as formas e atitudes do homem levou o arquiteto barroco a globalizar o ato de criação, a integrar o edifício num espaço natural determinado numa relação organizada com outras construções. Nessa época, os progressos do urbanismo e do paisagismo, tratados não como técnicas independentes mas integrados na obra final, falam de um desejo sempre presente nos artistas do século XVII: conquistar a unidade entre a arte e a realidade vital do ser humano.
À explosão de vitalidade e sensibilidade do barroco, concretização de uma sociedade disposta a todo momento ao teatral, cerimonioso e simbólico, o
neoclassicismo reagiu como representante da ordem e da disciplina. A razão, elevada à categoria de religião pelos enciclopedistas franceses e alçada aos cumes do poder com a revolução francesa, encontrou na recuperação dos cânones clássicos seu meio de expressão ideal. O feminino e decorativo estilo rococó, última fase do barroco em sua mais ostensiva manifestação do luxo e suntuosidade de uma monarquia fechada em si mesma, não podia ser aceito como representação artística das idéias democratizantes que se impunham na Europa e na América do Norte no final do século XVIII.

A busca estética e filosófica da pureza de linhas clássicas, de sua simplicidade original, não foi mais que o resultado da mudança das mentalidades e das idéias de intelectuais e eruditos da época. Arte do estudo e da reflexão, o neoclassicismo encontrou na ciência e na cultura clássica uma ética própria, à sombra da qual dirigiu seus passos e plasmou sua concepção da nova sociedade que nascia. As academias e demais instituições culturais se encarregariam mais tarde de sistematizar e dirigir a ordem científica e artística que surgia desse olimpo de técnica e arte. Defensores da ordem e da regra e, ao mesmo tempo, profetas de uma nova civilização, os arquitetos neoclássicos encontraram no império napoleônico e no ressurgir de novos e balbuciantes nacionalismos o quadro perfeito para traduzir em imagens e formas suas idéias estéticas.
Da Rússia à península ibérica, da Áustria aos Estados Unidos, erigiram-se construções cuja finalidade era acolher em seu interior as instituições e os chefes de uma ordem política emergente e cheia de vitalidade, fé e confiança no futuro. Na ordem artística, à austeridade formal das novas construções, a sua frieza retilínea e à severidade no tratamento dos volumes, que muitas vezes anteciparam as propostas funcionalistas de épocas vindouras, uniu-se um gosto especial pelo tratamento dos interiores. Manifestou-se um interesse novo pelos elementos decorativos, pelo mobiliário e pela pintura mural, que permitiu a alguns dos grandes nomes da arquitetura neoclássica conseguirem reunir numa perfeita conjunção de formas os componentes exteriores e interiores de seus conjuntos arquitetônicos.
O tratamento pormenorizado dos estilos barroco e neoclássico, assim como das grandes figuras da época, se encontra nos verbetes do quadro nº 5.

ARQUITETURA BARROCA E NEOCLÁSSICA
Mundo moderno
Surgido da revolução industrial e da nova estrutura social que se impôs na Europa e na América desde os meados do século XIX, o mundo moderno abandonou os princípios que regiam a arquitetura tradicional e se abriu para as novas concepções que privilegiam o espaço habitável e transcendem as questões meramente artísticas ou estéticas. A superação dos valores econômicos e sociais que imperavam no antigo regime contribuiu para consolidar o papel da cidade e sua articulação como corpo vivo, com necessidades e referências simbólicas próprias. Em consonância com a ascensão social da burguesia, os antigos centros de poder foram gradativamente substituídos por núcleos urbanos que abrigavam as novas forças políticas, transformadas agora em juízes do bom-gosto e do valor da obra de arte.
Foi, no entanto, nos Estados Unidos, longe das determinações que traçaram o caminho histórico percorrido pela arquitetura, que apareceram as novas formas de conceber o espaço urbano. O arranha-céu e o crescimento urbano vertical tornaram-se símbolos da cultura moderna. Dinâmicas e agressivas, as novas construções romperam com a hierarquia de valores aceita desde a antiguidade e relegaram a segundo plano, no trabalho dos arquitetos, os demais tipos de edifícios, como templos, palácios etc. Os materiais passaram a ser tratados como elementos integrantes de um mundo regido pela funcionalidade e pela solução dos problemas de habitação e conforto do conjunto da sociedade. A industrialização e o progresso tecnológico fizeram com que alguns materiais, como o concreto armado e o vidro, passassem a integrar os espaços arquitetônicos e mudassem o conceito segundo o qual os espaços interno e externo são compartimentos estanques e distintos. A estrutura de concreto armado favoreceu a leveza das formas e a substituição de paredes por materiais transparentes, que funcionam mais como invólucros através dos quais se comunicam interior e exterior, ocupantes da construção e a cidade.
A necessidade de dar credibilidade aos novos materiais e o interesse de ressaltar seu caráter primitivo e original marcaram profundamente a formação do arquiteto do século XX. A valorização do "fato construtivo" chegou a sua expressão maior no processo de abolição do elemento ornamental que se seguiu ao modernismo, último momento no qual o arquiteto sentiu-se artesão de sua obra. Com o lema "a decoração morreu", os arquitetos do início do século XX empreenderam o caminho da eliminação dos componentes simbólicos e referenciais que constituíam a obra de arte. Paredes lisas e brancas, concreto aparente e linhas sóbrias passaram a ser os princípios orientadores desses artistas. Os limites entre a função do arquiteto e a do engenheiro tornaram-se imprecisos, confundindo as duas profissões: para o engenheiro, a valorização da materialidade do fenômeno construtivo elevou sua criação à categoria de arte, demonstrando a abrangência da tecnologia e da indústria moderna postas a serviço da cultura. Construtor e engenheiro, o arquiteto do século XX não pôde, no entanto, abandonar seu lado artístico e criador. Por essa razão, aproximou-se muitas vezes de formas da natureza e criou estruturas orgânicas, ou tomou da história da arquitetura referências ou componentes estéticos de algum período artístico e os introduziu com total liberdade em seus edifícios, ratificando o sentido da convivência com o presente e diálogo com o passado que manteve desde o início a história da humanidade.
Quanto à contribuição dos grandes arquitetos e engenheiros do mundo moderno à arte universal e aos movimentos e escolas que influenciaram as formulações teóricas da arquitetura contemporânea.

ARQUITETURA, PAISAGISMO E URBANISMO NOS SÉCULOS XIX E XX
Culturas não-ocidentais e América pré-colombiana
As culturas não-ocidentais, relegadas ao esquecimento pelos ditames de uma tradição canônica dominante, foram, apesar disso, de grande importância no progresso da arquitetura universal. A diversidade de formas e estilos encontrados nos diferentes núcleos artísticos não-ocidentais impede a generalização de suas propostas arquitetônicas. Fatores religiosos, políticos, econômicos e estratégicos determinaram a criação dessas comunidades, como expressão de uma crença, manifestação de poder político ou símbolo de autoridade. Assim, o componente religioso foi dominante em grande parte das obras arquitetônicas do mundo islâmico, enquanto nas culturas chinesa e japonesa, ao lado dos edifícios destinados às funções espirituais, existem palácios e residências reais que falam do papel importante das autoridades centrais e locais para essas culturas, além do domínio que tinham da madeira como material de construção. A arquitetura indiana e a cambojana imprimiram à história da arte uma forma de entender a construção baseada na articulação dos componentes escultóricos com outros propriamente arquitetônicos na realização de grandes conjuntos religiosos e político-religiosos em que transparecia a idéia da personificação do mundo celestial.

A América pré-colombiana permaneceu distante das demais culturas e plasmou, em suas criações arquitetônicas, um mundo de valores espirituais e sociais próprio. A hierarquização da sociedade e da vida política, que resistiu à sucessão de diferentes impérios e civilizações, determinou a criação de espaços urbanos e arquitetônicos que manifestavam a grandeza das classes sociais dominantes e o controle que exerciam sobre a população. As estruturas piramidais e seus edifícios destinados a usos múltiplos são testemunhas do grande progresso técnico, artístico e institucional a que chegaram povos de vastas regiões da América, principalmente no centro e na zona andina do continente, e atestam a grandeza de civilizações mergulhadas num meio às vezes hostil, do qual tiraram proveito com o brilho que se conhece.

A arquitetura oriental se desenvolveu segundo seus próprios valores, um tanto diferentes dos que se verificaram no Ocidente. Algumas de suas principais características, como o telhado encurvado, não são encontradas em nenhuma outra tendência arquitetônica. Os materiais usados tradicionalmente na arquitetura chinesa, japonesa ou coreana, como bambu e madeira, eram bem pouco sólidos e por isso as construções mais antigas desapareceram. A partir de certo ponto, melhoradas as técnicas de construção, é possível acompanhar a seqüência histórica dessa arte no Oriente. Várias escolas, que correspondiam a situações sociais e culturais muito diferentes, estenderam suas concepções estéticas à arquitetura, que ganhou contribuições sucessivas de diferentes elementos decorativos e concepções de distribuição do espaço, correspondentes aos usos a que estavam destinadas as construções. Nota-se uma progressiva utilização de materiais que permitiam enfrentar obras de maior envergadura. Ligada, como no Ocidente, às concepções religiosas e políticas de cada momento, a arquitetura oriental ergueu gigantescos pagodes e palácios, alguns dos quais, apesar de estarem em ruínas, dão mostras do esplendor alcançado em certas fases da história do grupo social que empreendeu sua construção. Exemplos disso são os palácios da Cidade Proibida de Beijing (Pequim) ou os pagodes de Todai-ji, em Nara, e de Rokuon-ji, em Quioto. Um elemento característico da arquitetura chinesa que convém mencionar é o pai-lu, espécie de arco do triunfo formado de vários umbrais. No Japão, a turbulenta história das guerras de clãs que deu origem ao país está claramente representada na arquitetura. Palácios fortificados como os de Azuchi e Himeji, dotados de muralhas protetoras e altíssimas torres de vigilância, são exemplos disso.
Foi exatamente o emprego da madeira como material arquitetônico e decorativo que deu maior originalidade às construções orientais. Sua presença na decoração de palácios e pagodes é especialmente significativa. Os elementos de algumas dessas construções, como os artesões e colunas dos palácios de Horyu-ji e Toshodai-ji são de singular beleza. Não faltam a esses conjuntos decorativos nem talhas, nem policromia ou outros motivos ornamentais, que formam um todo harmônico de grande elegância, reflexo do ritmo pausado dos costumes domésticos orientais.
A arquitetura moderna desses países, mesmo guardando semelhanças com as formas arquitetônicas precedentes, tornou-se mais acomodada e funcional. A residência japonesa contemporânea conserva elementos de composição tradicionais e o emprego decorativo de materiais como a madeira, o papel e o bambu continua sendo habitual. A influência da arquitetura funcional do Ocidente, no entanto, é visível, e entre os arquitetos japoneses se encontram alguns dos nomes mais respeitados da arquitetura moderna.
A arquitetura de influência indiana apresenta uma evolução diferente. Na própria Índia, no Sri-Lanka, em Myanmar e na Tailândia, os elementos mais característicos dos templos budistas -- os stupas -- são vistos por toda parte.

ARQUITETURA E ARTE PRÉ-COLOMBIANAS E DE POVOS NÃO-OCIDENTAIS


Nesse sentido, deve ser tratado como problema de segunda ordem a ancestral contraposição entre arquitetura e construção. As estruturas mais precárias de proteção do homem primitivo já encerravam a função primordial da obra arquitetônica, independentemente de seu valor estético ou tecnológico. Paralelamente, os monumentos erigidos ao longo de toda a história revertem sua dimensão artística à função de albergue e local de reunião da comunidade. Tal é a autêntica dimensão em que se expressa a arquitetura como manifestação sóbria ou extravagante, funcional ou vanguardista, de civilizações e culturas de todas as épocas.

BIBLIOGRAFIA
Lemos, C. O que é arquitetura. 3ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1982. Definição, história e momento atual da arquitetura. Sugestão comentada de bibliografia. Linguagem simples e esclarecedora.
Gropius, W. Bauhaus: novarquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1972. Walter Gropius, um dos mentores da escola arquitetônica da Bauhaus e nome dos mais importantes da arquitetura e do desenho industrial da atualidade, expõe sua concepção de arquitetura. Discute as base sociológicas da "habitação mínima" para a população das cidades industriais e o planejamento orgânico de "unidades de vizinhança".
Coelho, E. Reengenharia na cidade. Rio de Janeiro, Taurus, 1995. Tentativa de esboçar um plano urbano que sirva de cenário para relações humanas mais fraternas.
IPHAN/MEC. Revista do Patrimônio nº 23. Rio de Janeiro, maio de 1995. Número especial da publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com artigos sobre o espaço urbano de autores diversos, entre eles grandes romancistas, intelectuais e alguns dos mais prestigiados arquitetos e urbanistas brasileiros.
Cavalcanti, L. Preocupações do belo. Rio de Janeiro, Taurus, 1995. Estudo sobre o projeto dos modernistas brasileiros para a reforma urbana empreendida nas décadas de 1930 e 1940. Analisa idéias e obras do arrojado grupo de arquitetos formado por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão e Ernâni Vasconcelos, liderados por Le Corbusier, e seus encontros e desencontros com o reacionarismo do Estado Novo.
Ribeiro, L. C. Q. e Pechman, R., organizadores. Cidade, povo e nação: gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1996. Artigos de diversos autores centrados no tema da reforma social baseada numa nova ordem espacial. Esta serviria de instrumento de difusão da modernidade, do progresso material e da democracia.
Graef, E. Cidade utopia. Belo Horizonte, Vega, 1979. O autor explora o relacionamento entre o homem social e o meio físico e questiona os valores da sociedade de consumo.
Sousa, R. Trajetórias da arquitetura modernista. São Paulo, Centro de Documentação e Informação sobre Arte Brasileira, 1982. Compilação de documentos e fotografias que caracterizam e interpretam o processo de introdução da arquitetura contemporânea em São Paulo.
Fath, H. Construindo com o povo. Rio de Janeiro, Salamandra, 1980. A obra resgata os antigos métodos de construção do Egito, com uso dos materiais disponíveis e voltados para população de baixa renda.
Costa, E. C. Arquitetura ecológica. São Paulo,  Blucher, 1982. Estudo cuidadoso da utilização exagerada dos recursos tecnológicos no Brasil, em detrimento das alternativas naturais de conforto térmico nas construções
Pedrosa, M. Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo, Perspectiva, 1981. Obra dividida em duas partes: a primeira contempla as artes plásticas e a segunda versa sobre arquitetura. Reflexões em torno da criação de Brasília e a arquitetura moderna, com depoimentos de Oscar Niemeyer.
Benevolo, L. História da arquitetura moderna. São Paulo, Perspectiva, 1994. O autor situa no meado do século XVIII a transformação radical da relação entre arquitetura e sociedade, resgatando o conceito de William Morris, segundo o qual a arquitetura moderna abrange todo o ambiente físico que circunda a vida humana.