Antropologia - BioMania
O melhor portal biológico da internet!



Antropologia


 Histologia

Ciência de limites pouco definidos

Costuma-se dizer, com economia de palavras, que a antropologia é a "ciência do homem". Tão resumida explicação não esclarece as dúvidas sobre o objeto da disciplina que se tenta definir. Também têm o homem por objeto a medicina, a economia, a sociologia, a filosofia e muitas outras ciências. Com a especialização progressiva das ciências humanas, reservou-se o termo antropologia para designar o estudo de certas áreas não consideradas pelas disciplinas congêneres: (1) o estudo das raças ou etnias humanas e suas características biológicas (antropologia física); e (2) o estudo do homem do ponto de vista social e cultural, ou seja, dos modos de vida comunitária que o ser humano adotou ao longo do tempo e nos mais diversos espaços geográficos (antropologia social e cultural). Quanto a esse assunto, a sociologia -- cujo objeto são as sociedades modernas, alfabetizadas, históricas, constituídas de grande número de membros e geograficamente extensas -- distingue-se da antropologia, que estuda sociedades mais simples, ágrafas e sem história, formadas por poucos seres humanos que geralmente se conhecem entre si. A sociedade moderna se caracteriza, entre outros traços, pelo anonimato da quase totalidade de seus membros. Mesmo assim, os campos da sociologia e da antropologia social se confundem muitas vezes e vários métodos e procedimentos de trabalho são comuns às duas disciplinas.

A descoberta da surpreendente antiguidade do gênero humano, ocorrida no século XIX, propiciou o desenvolvimento de uma nova ciência, dedicada ao estudo dos restos humanos, com o objetivo de conhecer a evolução biológica e social dos antepassados do homem moderno. Os cientistas que se aplicaram a essa tarefa se autodenominaram antropólogos, embora seu trabalho pouco tivesse em comum com o dos especialistas, também chamados antropólogos, que estudavam as formas sociais e elementos culturais de povos distantes da influência cultural européia. Também se chamaram antropólogos os que, munidos de instrumentos de medida, tentaram estabelecer as bases científicas da diferenciação étnica entre os seres humanos.
Nem mesmo quanto ao emprego do termo antropologia existe acordo entre os especialistas. A escola européia continental, essencialmente francesa, prefere chamar de etnologia a disciplina denominada antropologia social pelos autores anglo-saxões. Na França, emprega-se o termo antropologia para designar a ciência chamada antropologia física pelos britânicos. Nos Estados Unidos, está aparentemente mais clara a diferença entre antropologia social e cultural e antropologia física, denominações que se referem mais especificamente ao objeto de ambas.

Pelo dito acima, torna-se evidente a inoportunidade de exigir precisão terminológica a uma ciência, ou conjunto de ciências, que progrediu em países e círculos científicos muito diversos.

Antecedentes históricos

O princípio comum às grandes religiões segundo o qual todos os seres humanos pertencem a uma única espécie não encontra equivalente em todas as civilizações que se constituíram ao longo da história. Muitos povos foram incapazes de imaginar, fora dos limites de seus domínios, alguém que merecesse a categoria de humano. O interesse pelas culturas alheias não existia entre os antepassados remotos do homem moderno. O contato entre os povos limitava-se à guerra e a um restrito comércio entre os mais próximos. O mundo era um mistério impenetrável, povoado de deuses e espíritos, animais monstruosos e seres fantásticos. Com essa visão do universo, era difícil para aqueles ancestrais do homem atual imaginar um conceito abstrato como "humanidade" e estabelecer seu alcance. Os antigos gregos e depois os romanos chamavam bárbaros todos os povos radicados fora de suas fronteiras. O termo revestia uma clara conotação pejorativa, baseada no sentimento de superioridade cultural que impregnava ambos os povos da antiguidade clássica. Algo semelhante ocorria milhares de quilômetros a leste, no império chinês. O racismo, no entanto, não parece ter vingado na antiguidade greco-romana. Não há sinais de que gregos e romanos tivessem menosprezado outros povos pela cor de sua pele ou por traços físicos diferentes, embora praticassem o escravagismo. O Império Romano, na verdade, constituiu um mosaico de povos muito diferentes uns dos outros, entre os quais se deu um processo radical de miscigenação que durou séculos.

A idéia da superioridade de uma raça sobre outras surgiu na Europa, apoiada, em parte, em convicções religiosas medievais. A partir do Renascimento, os fatos históricos que determinaram a expansão européia para outros continentes reforçaram a idéia de superioridade da raça branca.
Quando, na época dos descobrimentos, o europeu conseguiu ter a seu alcance a maior parte do planeta, começou a tomar consciência da imensa variedade de etnias e, sobretudo, de formas de vida social que existiam pelo mundo. Antes disso, as narrativas de Marco Polo sobre a imensidão territorial e as riquezas dos impérios asiáticos tinham despertado na Europa extraordinário assombro e interesse por aqueles povos.

As histórias contadas pelos navegantes portugueses que deram a volta à África e chegaram à Ásia oriental e pelos espanhóis que chegaram às costas do Novo Mundo já não tinham nada em comum com as narrativas fantásticas do mundo medieval. Persistiam ainda mitos como o do Eldorado, mas logo foram desaparecendo dos mapas as imagens de seres monstruosos de duas cabeças, ou com corpo de homem e cabeça de animal, ao mesmo tempo que eram apagadas das cartas de navegação as figuras de sereias e tritões. Tornou-se realidade o contato dos europeus com novas etnias, costumes e religiões até então desconhecidas, de características muitas vezes assombrosas mas, em todos os casos, humanas. A identificação de índios e negros com demônios, como às vezes aconteceu, nunca chegou a ser uma obsessão coletiva como foi, por exemplo, a caça às bruxas na Europa central na mesma época.

A capacidade dos europeus do Renascimento de analisar as demais culturas era muito limitada. Os colonizadores espanhóis e portugueses, em geral, não manifestaram curiosidade pelos costumes e religião dos conquistados além das questões úteis para a conquista e exploração, ou para convertê-los ao cristianismo. Os teólogos se envolveram em polêmicas para decidir se índios e negros tinham alma, e o reconhecimento da identidade humana para todas as raças, embora explícito na doutrina cristã, esbarrou com grandes empecilhos para generalizar-se na prática. Os grandes impérios indígenas foram considerados apenas como uma fonte de riquezas e poder, ou como conjunto de almas a evangelizar. Raramente os conquistadores pensaram em receber dos conquistados algum ensinamento útil, idéias para aumentar seus conhecimentos ou costumes que pudessem ser postos em prática.

Os povos africanos só eram levados em conta como fonte de escravos. Crer na igualdade essencial das raças equivaleria então a demolir os alicerces de uma sociedade construída sobre bases escravistas e dar as costas a um próspero negócio. Pouquíssimos europeus estariam dispostos a isso, mesmo porque supor que os hábitos e idéias dos africanos pudessem conter lições interessantes teria sido considerado um despropósito pelos conquistadores.

Os verdadeiros precursores da antropologia moderna surgiram no Século das Luzes. Grandes pensadores europeus efetuaram um malabarismo ideológico sem precedentes e trocaram o menosprezo que as pessoas alimentavam pelos "selvagens" pelo mito do "bom selvagem". Nessa época, os primeiros estudos comparados entre culturas permitiram que as instituições sociais européias fossem finalmente relativizadas e mesmo questionadas. Ainda assim, os filósofos franceses do Iluminismo escreviam sobre os costumes de outros povos principalmente pelo interesse de instrumentalizar-se para contemplar com mais objetividade, de fora, os mitos e instituições sociais e culturais da própria sociedade européia e poder extrair da comparação armas ideológicas para sua luta a favor da racionalização e reforma.
Poder-se-ia fazer uma longa lista de autores importantes, viajantes, geógrafos e pensadores que, desde a antiguidade clássica até a aurora do mundo contemporâneo, descreveram e estudaram povos, raças e costumes diferentes e geograficamente distantes dos seus e se tornaram, assim, precursores da antropologia. 

Progresso da paleontologia

Na segunda metade do século XIX, os trabalhos de Darwin sobre a evolução das espécies provocaram, além do escândalo e da controvérsia que permaneciam acesos cem anos depois, uma nova visão do conjunto das ciências biológicas. O evolucionismo lançou novas luzes particularmente sobre restos arqueológicos muito antigos que, embora aparentemente humanos, não correspondiam em alguns detalhes morfológicos ao homem atual, de qualquer raça que fosse. Até a época de Darwin, não havia consenso sobre a interpretação desse estranho fenômeno. Ainda não estava superado o preconceito que impedia imaginar os antepassados do homem com uma configuração anatômica diferente da que apresenta o ser humano atual. O evolucionismo abriu portas para a  pesquisa e favoreceu a ordenação lógica dos achados paleontológicos, para os quais até então não se havia encontrado sentido. As peças do quebra-cabeça começaram finalmente a encaixar-se e se teve um vislumbre de como haviam sido os primeiros tempos da humanidade.

Em poucos anos tornou-se popular a afirmação, que hoje se sabe falsa, segundo a qual o homem descende do macaco. As pesquisas paleontológicas progrediram rapidamente e se sucederam os achados de restos fósseis pertencentes aos ancestrais remotos do homem atual. Cada um desses achados contribuiu para enriquecer os conhecimentos sobre a origem e evolução do homem. O saber sobre o caminho percorrido pelo homem desde a aurora da espécie aumentou a passos largos, mas, ao finalizar o século XX, a cadeia evolutiva que desembocou no homem atual ainda permanecia incompleta.

Antropologia moderna

A figura do antropólogo de campo, pesquisador que se desloca fisicamente ao lugar geográfico da sociedade que pretende investigar, só se firmou no final do século XIX. Até essa época tão próxima, os que estudavam o homem eram "pesquisadores de gabinete" que trabalhavam com dados de segunda mão, coletados em geral por navegantes, missionários e exploradores sem preparo teórico adequado, cuja atenção se voltava mais para casos excepcionais, que chocavam sua mentalidade eurocêntrica, do que para fenômenos gerais mais significativos. Até que se estabelecesse o costume de efetuar pesquisas de campo, a antropologia sofreu as conseqüências da teorização excessiva e permaneceu distante da realidade.
Os antropólogos do século XIX consideravam a mentalidade primitiva como uma etapa infantil, simplória e inferior do pensamento dos povos civilizados. O trabalho de campo instituído como prática no final do século veio alterar radicalmente essa idéia e demonstrar que era equivocada. Deslocando-se aos lugares mais distantes do mundo, os antropólogos aprenderam a conviver com pequenas comunidades para observá-las com o rigor e a persistência dos cientistas naturais. Assim descobriram que os processos mentais dos seres humanos ditos primitivos não eram simples como supunham os pesquisadores exclusivamente teóricos.

Da mesma forma como os conquistadores da época do Renascimento adotaram como pretexto ideológico para sua cobiça a "missão" de catequizar e converter ao cristianismo os povos não europeus, os colonialistas da já secularizada Europa do século XIX elaboraram requintadas justificativas para seu intento de submeter a seu poder outros povos e construir vastos impérios coloniais. A antropologia emergente não se livrou da contaminação ideológica e aderiu, muitas vezes, aos interesses dominantes de cada época. Na qualidade de ciência humana, pagou um pesado tributo à moda científica de seu tempo: evolucionismo e difusionismo, nos últimos anos do século XIX, e psicanálise, funcionalismo, estruturalismo e outras formas de pensamento que brilharam ao longo do século XX e impregnaram, em maior ou menor grau, os escritos antropológicos. No entanto, apesar da multiplicidade de tendências e de concepções muitas vezes contraditórias, a antropologia conseguiu coletar grande quantidade de dados, graças sobretudo à observação antropológica empírica.

As idéias evolucionistas que Darwin aplicou ao mundo vegetal e animal foram empregadas por outros autores, no final do século XIX, ao estudo das sociedades. Em economia, o darwinismo parecia justificar o "capitalismo selvagem", sistema no qual só sobrevivem os mais fortes e mais bem aparelhados. Sociólogos e antropólogos passaram a aplicar conceitos do evolucionismo a seus respectivos objetos de estudo e a falar de sociedades primitivas e evoluídas. A idéia segundo a qual as sociedades, como os seres vivos, evoluem paralelamente umas às outras mas, em alguns momentos, apresentam diferentes graus de evolução serviu de justificativa para a intervenção européia em outras nações, sob pretexto de ajudá-las a abreviar a distância que as separava da "irmã mais velha" e elevar todos os povos ao nível superior de civilização. Embora essas idéias tenham perdido toda a credibilidade científica no final do século XX, permaneceram arraigadas na mentalidade popular.

Durante muito tempo, a aproximação do antropólogo ocidental à realidade de outros povos caracterizou-se por uma atitude de superioridade. Generalizaram-se, na literatura antropológica, termos como "povos primitivos" e "selvagens", em contraposição a "povos evoluídos" e "civilizados". Esses vocábulos, de conteúdo marcadamente pejorativo, começaram a ser desterrados da linguagem científica nas primeiras décadas do século XX e desapareceram definitivamente depois da segunda guerra mundial. Derrotado o III Reich, funesto exemplo de estado moderno impregnado de racismo, tornou-se claro até que ponto o homem podia chegar se fossem levados às últimas conseqüências os postulados racistas. Os antropólogos, escarmentados pela lição, passaram a selecionar com mais cuidado os termos empregados para descrever raças e povos. Instituições culturais como a UNESCO trabalharam durante décadas pela reforma da terminologia e pela abolição dos vestígios etnocêntricos que ainda lastreavam as pesquisas antropológicas e sociais.

Nos últimos anos do século XX, a antropologia se deparava com a extinção da quase totalidade das culturas isoladas, o que dificultou enormemente a pesquisa de campo. No entanto, novos caminhos se abriram para os antropólogos com os processos de aculturação que ocorriam em sociedades até muito recentemente autônomas que se viram obrigadas a adaptar-se, traumaticamente, à tecnologia, usos e costumes ocidentais contemporâneos. Outra área de interesse antropológico se definiu em relação às pequenas subculturas que subsistiam e continuavam a aparecer no interior das sociedades modernas. Tornaram-se comuns os estudos antropológicos sobre associações de moradores, grupos de terceira idade, guetos e muitas outras pequenas comunidades em que se fragmenta a sociedade moderna.

Povos, culturas e raças

Em algumas espécies animais, todos os espécimes são muito semelhantes entre si. Em outras, existem grandes variações de indivíduo para indivíduo e entre grupos de indivíduos. Um caso de polimorfismo extremo é o dos cães e outro, mais moderado, é o dos seres humanos. Além das características individuais, há outras compartilhadas por grupos humanos. As mais evidentes, como cor da pele, cabelos e traços fisionômicos, não têm grande significado do ponto de vista biológico, mas tradicionalmente se atribui grande importância a essas características biologicamente secundárias que foram tomadas como ponto de partida para as divisões étnicas no conjunto dos seres humanos. Em contrapartida, traços diferenciadores muito importantes, como o grupo sangüíneo, não foram levados em conta por não se manifestarem exteriormente.

Muitos preconceitos ancestrais, de origem sociológica ou psicológica, foram tradicionalmente associados a características étnicas aparentemente neutras, como a cor da pele. As causas do preconceito racial são muitas, mas podem ser resumidas no medo daquele que se vê como diferente. O acúmulo de atitudes preconceituosas, resquícios históricos, ideologias residuais e condicionantes sociais de todo tipo tornam muito difícil a atitude científica no campo da diferenciação étnica. Basta que um pesquisador enuncie uma hipótese de trabalho sobre certa etnia para que surjam por toda parte pessoas que apóiem com essa hipótese seus próprios preconceitos raciais. O fato de todos aqueles que apregoam a existência de raças superiores e inferiores pertencerem sempre àquela que consideram superior é prova de que essa posição é preconceituosa e destituída de base científica. Por todos esses motivos, muitos pesquisadores se negavam a abordar o estudo das etnias, no qual os interesses e as idéias preconceituosas fazem desviar com facilidade do caminho imparcial da pesquisa científica.

Uma relação completa dos povos que existem ou existiram no mundo excederia o espaço que se destinou ao tema nesta publicação. Assim, pretendeu-se agrupar as características que correspondem a vários povos em verbetes longos, que seguem em geral critérios geográficos. Por sua importância, algumas culturas receberam atenção especial em separado. 

Principais elementos culturais e instituições das sociedades humanas

O antropólogo observa, analisa e descreve as diferentes formas que pode adotar a vida social nas pequenas sociedades humanas que constituem o objeto de seu estudo. Em seu campo de trabalho se incluem atividades, instituições, religiões e formas de pensamento tão diversas quanto a liderança, a guerra, os jogos, a música, a dança, o modo de construir as casas, a estrutura de poder, a relação com o ecossistema, a estrutura familiar, os laços de parentesco, as cerimônias, os mitos, os hábitos alimentares, a caça, a interpretação dos sonhos, as atitudes diante de estranhos, a fabricação de instrumentos de trabalho, as tradições orais etc. Todos esses elementos, materiais ou não, conformam a vida humana sob a dimensão social e constituem uma cultura, entendida em sentido amplo.

Para a antropologia, os comportamentos e habilidades humanas não são independentes da vida em comunidade. Fora do contexto cultural permanecem apenas as qualidades humanas estritamente fisiológicas e psicológicas que tenham escapado ao condicionamento social e a outras influências exteriores. Os elementos de natureza psicológica não influenciados pela vida social são, no entanto, mais raros do que se pensa vulgarmente. Desde o nascimento, o indivíduo é submetido a um intenso processo de socialização e efetua uma aprendizagem contínua que condiciona definitivamente seus comportamentos, reações, sentimentos, gostos e atitudes. Assim, alimentos considerados requintados por alguns povos, como caracóis, formigas ou carne de porco, são rejeitados com repugnância por outros. O simples ato de alimentar-se, aparentemente tão natural, na verdade está inelutavelmente condicionado pela assimilação dos preconceitos, tabus e costumes da sociedade em que se forma o indivíduo.

Uma das características da vida humana na sociedade "simples" que mais dificuldades apresentam à compreensão do antropólogo são as idéias e credos religiosos. Nas sociedades ocidentais secularizadas, ao predomínio do pensamento filosófico sucedeu o predomínio do pensamento científico e as religiões ficaram limitadas principalmente às questões relativas aos valores morais. Numa sociedade pré-científica e não secularizada, pelo contrário, as crenças religiosas têm um significado prático imediato, difícil de entender para o antropólogo, habituado, seja ou não religioso, a outra ordem de valores. 

As sociedades "simples" estudadas pela antropologia mostram, em grau muito mais elevado que as sociedades "modernas", que o status social de uma pessoa, seu patrimônio, seu trabalho, seus direitos e obrigações são determinados por relações genealógicas e de parentesco existentes entre ela e outros membros da sociedade. Os diferentes e às vezes complicadíssimos sistemas de parentesco, as regras, normas, tabus e preceitos matrimoniais, valores sexuais, distribuição dos papéis econômicos, cerimoniais e de poder entre os membros de uma família variam extraordinariamente de uma para outra sociedade. 

Outros temas estudados pela antropologia tratam das relações "políticas", ou de poder, no interior das pequenas sociedades, e englobam a estratificação social, as formas como as leis e costumes regulam a vida social, os valores morais impostos pela sociedade a seus membros, as manifestações artísticas e cerimoniais, a organização econômica, a divisão social do trabalho e a relação com o meio ambiente. É importante não esquecer a estrutura e funções da linguagem, importantíssimo tema de pesquisa. 

No mundo atual, apesar da tendência à uniformização em massa imposta a toda a humanidade pela universalização da tecnologia, ou talvez precisamente por causa desse fenômeno, está ocorrendo com freqüência inusitada o contato entre culturas diferentes. Ninguém poderia reconhecer, por exemplo, no mosaico de raças que convivem numa grande cidade européia, a antiga uniformidade étnica característica do continente. O progresso dos meios de transporte, a facilidade de comunicação e a multiplicação das relações comerciais deram como resultado um intercâmbio cultural progressivamente mais intenso. A antropologia não permaneceu alheia a esse fenômeno. Os especialistas, que de início se agruparam em escolas bastante independentes umas das outras, muitas vezes com métodos tomados de empréstimo a outras ciências humanas, como a sociologia e a psicologia, passaram a intercambiar informações e a empregar uma terminologia mais generalizada.

O trabalho dos antropólogos facilitou muito, e deve continuar a fazê-lo no futuro, a compreensão mútua entre culturas e sociedades diferentes, a ampliação das margens de tolerância e a supressão do medo irracional do "outro", que em inúmeras ocasiões envenenou as relações entre os povos. Os especialistas em antropologia física contribuíram em grande medida para a diminuição dos preconceitos raciais ao demonstrar que as características transmissíveis por herança no interior de uns e outros grupos étnicos, apesar das aparências, são apenas secundárias e que as diferenças mais importantes entre os povos são culturais, ou seja, adquiridas. Se cada ser humano se empenhasse em compreender outras culturas, conheceria mais a sua cultura e seria capaz de conduzir melhor a própria vida.

BIBLIOGRAFIA
Radcliffe-Brown, A. R. Estrutura e função nas sociedades primitivas. Lisboa, Edições 70, 1989. Teoria das sociedades primitivas que lança mão dos conceitos de função e estrutura social para explicar o percurso que vai do parentesco às relações paródicas, do totemismo à religião e do tabu ao direito.
Lévi-Strauss, C. As estruturas elementares do parentesco. 2ª ed. Petrópolis RJ, Vozes, 1982. Clássico da antropologia, discute as relações entre natureza e cultura e as teorias sobre o incesto como preparação para a abordagem das relações de parentesco em diferentes sociedades.
Engels, F. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 5ª ed. Rio de Janeiro, Global, 1991. Tomando por base os estudos antropológicos de L. H. Morgan, que relacionam pré-história e história escrita, Engels procede a uma análise sistemática da evolução histórica de três instituições fundamentais em todas as sociedades humanas: a família, a propriedade e o estado. As maneiras como elas se relacionam se confundem com a própria história da humanidade.
Ribeiro, D. O processo civilizatório: etapas da evolução sociocultural. Petrópolis, Vozes, 1978. O antropólogo e educador Darci Ribeiro estuda, neste que é talvez o principal livro de sua vasta obra, as teorias da evolução sociocultural, as sociedades arcaicas, as civilizações regionais, as civilizações mundiais e a revolução tecnológica.
Laplantine, F. Aprender antropologia. 8ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1994. Dividida em três partes, a obra revê a história do pensamento antropológico.
Velho, Gilberto. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. 3ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994. Onze textos em que o autor procura delimitar uma área de pesquisa e reflexão dentro da antropologia contemporânea, a fim de abordar a sociedade em toda sua complexidade. Os primeiros ensaios correspondem a um esforço teórico sistemático a os seguintes, à exploração de casos específicos.
Viveiros de Castro, E., organizador. Antologia do parentesco: estudos ameríndios. Rio de Janeiro, UFRJ, 1995. Coletânea de trabalhos produzidos para o Programa de Pós-Graduação do Museu Nacional sobre o tema do parentesco, fundamental na etnologia indígena brasileira.
Cascudo, L. C. Dicionário do folclore brasileiro. 6ª ed. Belo Horizonte, Itatiaia/Edusp, 1988. Obra de consulta produzida pelo o maior folclorista brasileiro sobre mitos e lendas do Brasil, assim como de usos, costumes, gostos, modismos, indumentária, alimentação e festas nacionais e regionais.
Brandão, C. R. O que é folclore. Coleção Primeiros Passos, São Paulo, Brasiliense, 1982. Em oito pequenos ensaios, o autor discute a posição do folclore na dinâmica das culturas. Com indicações para outras leituras sobre o tema.
Ribeiro, B. Os índios das águas pretas, São Paulo, Companhia das Letras, 1995. Estudo sobre culturas indígenas do rio Negro, que focaliza especialmente as técnicas de preservação ambiental praticadas pelos indígenas. A autora propõe o aproveitamento dessas técnicas para solucionar problemas ecológicos.