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Anatomia


 Anatomia Humana

O termo anatomia (do grego anatémnein, "dissecar"), é atribuído tradicionalmente a um dos discípulos de Aristóteles, Teofrasto, que no século IV a.C. realizou as primeiras experiências para o conhecimento dos componentes isolados dos seres vivos.
A anatomia é o ramo da medicina que estuda, macro e microscopicamente, a constituição e o desenvolvimento dos seres organizados. Ela analisa, em termos descritivos, cada um dos diferentes níveis de organização dos vegetais, dos animais e do ser humano.


Subdivisões. Os componentes da matéria viva ordenam-se hierarquicamente. Assim, distinguem-se, em ordem ascendente, as organizações subcelulares, celulares, histológicas (de tecidos), orgânicas, de sistemas etc. Essa classificação, baseada no nível de organização da matéria viva, permite distinguir as três categorias de organismos que justificam a divisão da anatomia em vegetal, animal e humana. Considerando-se as várias perspectivas de investigação, tem-se diversas subdivisões de caráter didático, as mais importantes das quais são enumeradas a seguir.
A anatomia geral, ou descritiva, ocupa-se de isolar e descrever, pormenorizadamente, cada um dos componentes dos distintos sistemas anatômicos: raízes, caule, folhas e aparelho reprodutor, nos vegetais, e aparelho digestivo, respiratório, neuromuscular, genital etc., na área animal e humana.
A anatomia topográfica estuda os órgãos e sistemas que compõem uma determinada parte do corpo. Já foram elaboradas, por exemplo, detalhadas análises anatomotopográficas da cabeça, do pescoço, da região abdominal e dos membros inferiores e superiores. A principal área de aplicação desse ramo da anatomia é a cirurgia.
A anatomia patológica estuda as modificações por que passam as células, tecidos e órgãos em decorrência dos diferentes processos suscetíveis de tratamento: doenças, defeitos congênitos ou traumatismos. Esse ramo da anatomia desenvolveu-se, sobretudo, com base em autópsias. No entanto, o progresso dos métodos de observação e das técnicas de anestesia tem contribuído para que os dados fornecidos por autópsias sejam complementados por exames em seres vivos (as biópsias).
Por fim, a anatomia comparada ocupa-se do estudo dos aspectos que permitem distinguir as diversas espécies animais ou vegetais, a partir de critérios puramente morfológicos. Seus resultados possibilitam definir as unidades que constituem o reino vegetal e o animal, e proporcionam o fundamento da taxonomia, ciência da classificação dos organismos vivos. Nesse domínio, intervêm ainda inúmeros aspectos descritivos relacionados com os restos fósseis e com as características embriológicas de cada espécie.

 

Dados históricos

A ciência da anatomia desenvolveu-se muito lentamente. Sua história pode ser dividida em quatro períodos: (1) até a dissecção científica por Vesalius (1543); (2) até o advento da fisiologia científica com William Harvey (1628); (3) até a demonstração da unidade da vida por Charles Darwin (1859); (4) depois de Darwin.


Da antiguidade ao Renascimento

Foram os filósofos da antiguidade que, ao mesmo tempo que exerciam a "arte de curar", começaram a esboçar o estudo da anatomia. Não podendo utilizar o corpo humano para satisfazer sua curiosidade científica, visto que tal procedimento constituía então profanação religiosa, limitavam-se ao estudo das carcaças de animais domésticos e de macacos, neste último caso por serem esses animais os mais parecidos com o homem. Apesar do pouco valor científico de tais observações e descrições, tiveram o mérito de ser as primeiras a orientar de maneira científica o estudo da anatomia.

Os embalsamadores chegaram a aprender alguma coisa de anatomia ao preparar as múmias, e os cirurgiões, ao tratarem os ferimentos. O papiro de Edwin Smith (3000-2500 a.C.) contém alguns dados sobre a anatomia da cabeça e do cérebro. Já o papiro de Ebers (1600 a.C.) contém maior quantidade de informações. Alguns trabalhos de anatomia foram atribuídos a Hipócrates, mas não há informação de que ele ou Aristóteles houvessem dissecado o corpo humano. Ambos imaginavam que o coração era a sede do intelecto. Aristóteles estudou muito os animais e foi, por assim dizer, o fundador da anatomia comparada. Por volta de 300 a.C., começou-se a estudar em Alexandria (Egito) os cadáveres de criminosos justiçados.

Foi nessa época que pontificou Herófilo, o maior dos anatomistas gregos. Antes dele a anatomia era mais especulativa do que descritiva. Dissecando o corpo humano, Herófilo dava à anatomia uma base realmente concreta. Estudou o cérebro e o reconheceu como o centro do sistema nervoso e a sede da inteligência; distinguiu os nervos motores dos sensitivos; demonstrou que a aorta e as artérias continham sangue e não ar; descreveu os vasos linfáticos do intestino. Erasístrato, nessa época, acreditava que as artérias continham ar ou spiritus vitalis e suspeitou que os ramos terminais das artérias e veias eram ligados por tubos menores, fora dos limites da visibilidade. Foi o primeiro a afirmar que as veias, à semelhança das artérias, faziam centro no coração e não no fígado. Descreveu as válvulas do coração.

Com a morte de Herófilo e de Erasístrato, a anatomia entrou numa fase de declínio, para ressurgir no início da era cristã, com Marino, que viveu em Roma, no tempo de Nero, e com Rufo, de Éfeso, cujos estudos, a exemplo dos de seus antecessores, que não podiam trabalhar em cadáveres humanos, foram feitos em animais. Rufo descreveu o timo, o quiasma óptico, o pâncreas e as trompas uterinas. Marino não deixou escritos; suas lições se preservaram através de seu discípulo, Galeno.
Com grande habilidade, Galeno dissecava corpos humanos e de animais, escrevia e ensinava. De seus escritos, muitos se perderam, restando, entretanto, 59 publicações sobre anatomia, com destaque para De musculi dissectione (Sobre a dissecação do músculo), de clareza e precisão surpreendentes. Muito do que ele sabia sobre ossos e articulações procede de Marino. Seus livros ainda são lidos com interesse e alguns nomes por ele dados a ossos, nervos e outras partes do corpo persistem. Depois de Galeno passou-se a estudar mais nos livros do que na própria natureza. O escolasticismo medieval fez de Galeno e Aristóteles autoridades absolutas. A dialética metafísica dominava sobre a observação objetiva. Em algumas universidades foi proibida a pesquisa, sendo punidos os médicos que ousassem discordar de Galeno.
Os artistas estimularam os estudos de anatomia, pois queriam representações exatas do corpo.  No Renascimento, Leonardo da Vinci, Albrecht Dürer, Michelangelo e Rafael realizaram dissecções.

Leonardo começou fazendo medições dos músculos e se tornou um anatomista, chegando a realizar trinta autópsias, mais de 750 desenhos anatômicos e 120 cadernos de apontamentos sobre anatomia. Muitos dos achados de Leonardo foram confirmados por anatomistas posteriores. Seu trabalho preparou o caminho para o "restaurador da anatomia", o médico flamengo Andries van Wesel, conhecido como Andreas Vesalius, cujo grande livro sobre o assunto foi publicado 24 anos depois da morte de Leonardo.

 

De Vesalius a Harvey. Vesalius inicia o segundo período da evolução histórica da anatomia. Em 1533, com a idade de 19 anos, foi para a Universidade de Paris, onde estudou medicina sob a orientação do famoso Jacques Dubois, mais conhecido pela latinização de seu sobrenome, Sylvius.

Colou grau em Pádua, onde se tornou famoso por sua habilidade e conhecimento de anatomia e cirurgia. Em 1537, assumiu a cadeira de cirurgia e anatomia da universidade, e foi o primeiro a receber salário como professor de anatomia, função em que se notabilizou, corrigindo os erros cometidos por Galeno. Em 1543 publicou a obra De humani corporis fabrica libri septem (Sete livros sobre a estrutura do corpo humano), que apresentava pela primeira vez, em belas e exatas ilustrações, as estruturas do corpo. Essa obra revolucionou a ciência médica da época, imprimindo-lhe enorme progresso (o departamento de anatomia da Universidade de São Paulo possui um exemplar original da primeira edição do livro).

Depois que Vesalius deixou Pádua, a cadeira de anatomia foi ocupada por cinco eminentes anatomistas. O primeiro foi seu assistente Realdo Colombo. Vieram depois Gabriello Fallopius, Hieronymus Fabricius ab Aquapendente (Geronimo Fabrizio), Giulio Casserio (Casserius) e Adrian van der Spigelius. Em Bolonha, Jacopo Berengario da Carpi contribuiu para o conhecimento do apêndice e do timo. Giulio Aranzio (Arantius) estudou o coração e Costanzo Varoli descreveu o cérebro (pons Varolii). Em Roma, Bartolomeo Eustachio (Eustachius) fez muitas descobertas.

Sua fama, aliás póstuma, adveio de seus magníficos desenhos anatômicos. Foi dos primeiros a reproduzi-los em cobre e não em madeira. Na França, Jacobus Sylvius (Jacques Dubois) contribuiu para o conhecimento dos ossos da cabeça e para a reforma da nomenclatura anatômica. Na Suíça, Felix Platter escreveu magnífico trabalho sobre o olho. Na Inglaterra, Thomas Vicary publicou, em 1548, um pequeno livro, Anatomie of the Bodie of Man (Anatomia do corpo humano), talvez o primeiro livro de anatomia em língua inglesa. William Harvey (1578-1657), depois de quatro anos com Fabricius, retornou à Inglaterra e se dedicou especialmente ao estudo da circulação. Aprendeu tudo sobre o coração, juntou os fatos, acrescentou observações e assentou os princípios da circulação do sangue, com isso revolucionando a ciência médica.

Foi anatomista e fisiologista, escrevendo o livro Exercitatio anatomica de motu cordis (Exercício anatômico sobre o movimento do coração). Chegou a afirmar que o sangue passava das ramificações arteriais para as ramificações venosas. Passou o resto de sua vida buscando identificar os capilares e, embora não os tivesse observado, previu sua existência. Quatro anos após a morte de Harvey, em 1657, Marcello Malpighi conseguiu ver pela primeira vez os capilares sangüíneos num preparado de pulmão de rã. De Harvey a Darwin. O terceiro período, especialmente no século que sucedeu à fase de Harvey, se tornou a idade heróica da anatomia microscópica e da embriologia.

Esse período se caracterizou pela fundação de sociedades científicas e filosóficas, publicações de textos, atlas, criação de museus, escolas de anatomia, etc. As investigações anatômicas foram em grande parte realizadas pelos cirurgiões. J.G. Wirsung e um colaborador descobriram o canal pancreático; O. Rudbeck, da Suécia, e T. Bartholinus, da Dinamarca, identificaram, independentemente (em 1651 e 1652, respectivamente) o sistema linfático e sua terminação nas veias do pescoço, embora as pranchas de Eustachius já os tivessem exibido. Em meados do século XIX, a teoria de Charles Darwin, sobre a origem das espécies, revolucionou as ciências biológicas.

Aristóteles e Harvey pressentiram essa descoberta; os paleontologistas e os estudiosos de anatomia comparada chegaram a colher dados prenunciadores. Mas foi preciso a inteligência e o espírito de síntese de Darwin para que se concluísse que os seres vivos estavam ligados por traços de hereditariedade. Baseando-se em fatos anatômicos, a teoria de Darwin foi aos poucos se valorizando e acabou amplamente aceita antes do fim do século XIX. Isso uniu a anatomia humana com a dos animais e das plantas. Daí por diante as ciências biológicas descortinaram um campo imenso de investigações fundamentadas na anatomia. As pesquisas não mais se limitaram ao corpo humano.

O estudo dos cromossomos em moscas e os experimentos do monge austríaco J. G. Mendel em híbridos de ervilhas trouxeram imensa contribuição ao conhecimento da hereditariedade. Os mamíferos inferiores constituíram campo fértil para o estudo dos processos vitais do homem. A anatomia na atualidade. Durante séculos a dissecção fora perigosa. Atualmente, pode ser realizada com segurança, graças aos recursos existentes para a assepsia e preparo do cadáver.

No século XX, a linha de investigação se faz no sentido de estudar no ser vivo, e não apenas no cadáver. Por meio da radioscopia (fluoroscopia), é possível observar os órgãos internos em movimento; as radiografias fixam os aspectos mais variados das estruturas superficiais e profundas. Atualmente, técnicas como os raios X, o ultra-som, a ressonância magnética e a tomografia computadorizada simplificam bastante o estudo da anatomia, permitindo a clínicos e cirurgiões observarem a máquina humana em funcionamento. Os velhos métodos de estudo da anatomia e o equipamento singelo de antigamente já não satisfazem.

Hoje estuda-se a anatomia de todas as espécies de animais, com as mais variadas técnicas, em inúmeros laboratórios universitários. Os departamentos de pesquisa das melhores universidades dispõem de espaço e equipamento para investigações em muitos campos: anatomia microscópica (com o microscópio eletrônico), citologia (com centrífugas, aparelhos para rápida fixação em ar líquido e para irradiação de tecidos); cultura de tecidos; embriologia; fluoroscopia. Nomenclatura anatômica

Chama-se nomenclatura anatômica ao conjunto de termos empregados para indicar e descrever as partes do organismo; é a base da linguagem anatômica. Compreende termos que indicam a situação e a direção das partes do corpo; termos gerais, comuns a vários constituintes do corpo; e termos especiais, que denominam os diferentes constituintes do corpo. Até o fim do século XIX não havia acordo geral sobre os termos usados na anatomia.

Do primeiro esforço conjunto para criar uma terminologia anatômica padrão, realizado em Basiléia (1895), resultaria a Basle Nomina Anatomica (BNA). Com o crescente desenvolvimento dos conhecimentos anatômicos, várias propostas foram apresentadas para modificação e atualização da nomenclatura. A Nomina Anatomica aceita hoje, oficial e internacionalmente, é a de Paris, PNA, de 1955, complementada por vários congressos internacionais de anatomia. Ao lado da Nomina Anatomica existem as nomenclaturas histológica e embriológica internacionais. A nomenclatura anatômica oficial adota o latim, mas em uso corrente é traduzida para o vernáculo. A Sociedade Brasileira de Anatomia (SBA), publicou e mantém atualizada a tradução da Nomina Anatomica para o português, revista por uma comissão mista Brasil-Portugal, por decretos e determinações dos governos de ambos os países.

Os termos constantes da nomenclatura anatômica têm, em geral, origem grega, latina, árabe ou híbrida, e encontram seu fundamento na forma do órgão ou parte dele (sela túrcica do osso esfenóide, músculo deltóide, ligamento redondo); em sua situação (artéria vertebral, nervo mediano); em suas conexões (ligamento acromioclavicular, músculo intercostal), em sua função (músculo extensor dos dedos, glândula lacrimal). Outros termos, de origens as mais diversas, muitas vezes impróprios, foram consagrados pelo uso e são conservados.

Os nomes dos autores que acompanham muitas designações devem ser excluídos, porque além de nada significarem morfológica ou funcionalmente, não representam, na maioria das vezes, justa homenagem histórica. Termos gerais são habitualmente abreviados: a. - artéria; v. - veia; n. - nervo; m. - músculo; lig. - ligamento; gl. - glândula; g. - gânglio. Estudo de anatomia O estudo, ainda que elementar, da anatomia humana, é feito em cadáveres de indivíduos adultos, considerados normais, mas deve incluir noções relativas aos fatores gerais de variação e às diferenças morfológicas decorrentes das modificações resultantes da passagem do estado de vivo ao de cadáver.

Em vista da relatividade dos conhecimentos que se podem obter pela dissecação de cadáveres, a qual representa um meio e não a finalidade da anatomia, os métodos de observação têm sido aperfeiçoados e deles se vale a anatomia para conseguir dados no próprio indivíduo vivo; assim, entre outros recursos, utilizam-se os raios X, a cinerradiografia, as drogas radioativas, aparelhos elétricos registradores e, para exame de órgãos cavitários, a endoscopia. Fatores gerais de variação em anatomia. São os seguintes os fatores gerais de variação em anatomia a considerar: idade, sexo, grupo étnico e biotipo. Idade. Verificam-se modificações anatômicas com o progredir da idade, nos diversos períodos ou fases da vida intra e extra-uterina. As fases de vida pré-natal ou intra-uterina são: (1) ovo ou germe, primeiras duas semanas; (2) embrião, até o fim do segundo mês; (3) feto, do terceiro ao nono mês.

Na vida pós-natal ou extra-uterina os períodos principais são os seguintes: (1) recém-nascido e período neonatal, primeira quinzena após o nascimento; (2) infância, até o fim do primeiro ano; (3) meninice, que inclui a segunda infância, entre os dois e cinco anos e a pequena puberdade, dos seis aos dez anos; (4) pré-puberdade, dos dez anos à puberdade; (5) puberdade (início de maturidade sexual), dos 12 aos 14 anos, muito variável nos seus limites e nos dois sexos; (6) pós-puberdade, da puberdade até cerca de 21 anos nas mulheres e 25 anos nos homens, passando por adolescente e jovem, sucessivamente; (7) virilidade, em que o indivíduo é adulto, atinge a maturidade, que perdura até a menopausa (castração fisiológica natural), aproximadamente aos cinqüenta anos na mulher e aos sessenta no homem; (8) velhice, até ao redor dos oitenta anos, seguido de senilidade. Sexo. O sexo masculino e o feminino apresentam caracteres próprios, correspondentes ao dimorfismo sexual. Grupo étnico. Compreende os grandes grupos raciais -- branco, negro e amarelo -- e os seus graus de mestiçagem, responsáveis por diferenças morfológicas externas e internas.

Biótipo. Refere-se ao tipo constitucional que existe em cada grupo racial. Há dois tipos extremos e um médio, além dos tipos intermediários. Nos tipos extremos é que melhor se notam as diferenças, quer nos caracteres morfológicos externos, quer nos internos, derivando das mesmas uma construção corpórea qualitativa e quantitativamente diversa. Os tipos extremos são denominados: (1) longilíneo -- indivíduos esguios, magros, altos, com pescoço longo, tórax achatado anteroposteriormente e membros longos em relação ao tronco; (2) brevilíneo -- atarracados, baixos, com pescoço curto, tórax tendendo para cilíndrico e membros curtos relativamente ao tronco. O normolíneo ou mediolíneo tem caracteres intermediários aos dois tipos extremos (éctipos). Além desses fatores de variação, existem as variações individuais, que vêm dificultar a aplicação prática dos conhecimentos anatômicos oriundos de uma descrição padrão. Normal em anatomia. Em medicina, normal significa, de modo geral, sadio, hígido.

No entanto, em anatomia, há que considerar os conceitos estatístico e idealístico. Pelo conceito idealístico, entende-se por normal o melhor para o desempenho da função, enquanto, pelo conceito estatístico, normal é o mais freqüente, ou seja, o que ocorre na maioria dos casos estudados e que serve de base para a descrição anatômica padrão. Isso significa que, embora haja uma constituição semelhante para todos os homens, existem diferenças de um indivíduo para outro, sem que seja prejudicado o bom funcionamento do organismo. Essas pequenas diferenças morfológicas, que aparecem e são encontradas em qualquer dos sistemas orgânicos, denominam-se "variações". Quando o desvio da normalidade é maior, podendo perturbar uma determinada função, denomina-se "anomalia". Por fim, se a anomalia for tão acentuada que deforme profundamente a construção do organismo, é denominada "monstruosidade", que pertence propriamente ao domínio da teratologia, isto é, ao estudo das aberrações dos seres vivos.


Divisão anatômica do corpo humano

O corpo humano é constituído fundamentalmente de cabeça, pescoço, tronco e membros. A cabeça compreende crânio e face e une-se ao tronco por meio do pescoço. No tronco consideram-se o tórax, o abdome e a pelve, com as respectivas cavidades torácica e abdominal separadas entre si por um septo muscular, o diafragma. A cavidade abdominal prolonga-se na cavidade pélvica. Os membros, em número de quatro, dois superiores e dois inferiores, possuem uma parte radicular, cinta ou cintura do membro, pela qual se unem ao tronco, e uma parte livre. Na parte livre de cada membro superior consideram-se o braço, o antebraço e a mão, esta última com palma e dorso, e cinco dedos. Na parte livre do membro inferior consideram-se a coxa, a perna e o pé, este último com planta e dorso do pé, e cinco dedos. A parte radicular do membro superior é denominada espádua ou ombro; a do membro inferior denomina-se quadril.

Na transição do braço para o antebraço há o cotovelo; do antebraço à mão, o pulso ou punho; da coxa à perna, o joelho; e da perna ao pé, o tornozelo. Na parte posterior do pescoço, tronco e quadril, encontram-se, respectivamente, a nuca, o dorso, o lombo e a região sacrococcígea. Ladeando esta última, localizam-se as nádegas, regiões glúteas. Planos e eixos do corpo humano. A descrição anatômica do corpo humano baseia-se no indivíduo adulto, em posição ereta, isto é, em pé ou posição ortostática, com os membros superiores estendidos, aplicados ao tronco, os inferiores justapostos, e com a face, as palmas da mão e as pontas dos pés dirigidas para a frente.

Nessa posição anatômica de descrição, o corpo humano pode ser delimitado por planos e atravessado por eixos imaginários, a saber: (1) plano longitudinal, que divide o corpo em partes direita e esquerda, sendo que, se essa divisão for mediana, em metades direita e esquerda simétricas, o plano será sagital mediano; por qualquer outro plano sagital, paralelo a esse, será um plano lateral, direito ou esquerdo; (2) plano horizontal ou transversal, que separa o corpo em partes superior e inferior; há o transversal cranial, o transversal caudal, e todos os outros a eles paralelos; (3) planos frontais, ventrais ou dorsais, isto é, anteriores ou posteriores, e a eles paralelos; (4) a cada plano corresponde um eixo, tendo-se assim, eixos sagitais, anteroposteriores; eixos longitudinais, ou verticais, súpero-inferiores; e eixos transversais, laterolaterais ou destro-sinistros. Termos de posição em anatomia. Na descrição anatômica usam-se termos específicos para situar um órgão ou parte dele em relação a outros.

Medial significa que a estrutura está mais próxima do plano sagital mediano. Lateral indica posição mais afastada do plano mediano. Muitas vezes os termos medial e lateral também são usados para designar a posição relativa de duas estruturas: "o nervo é medial à artéria". Anterior pode significar a parte "da frente" do corpo, porém em sentido mais amplo refere-se também à posição mais próxima da frente do corpo.

Do mesmo modo, posterior refere-se às costas. Proximal e distal é a porção mais próxima ou mais afastada do centro. Cranial e caudal são termos indicativos de formações superiores (mais próximas da cabeça) ou inferiores (mais próximas da região caudal). Interno e externo, superficial e profundo, são outros termos de posição muito empregados em anatomia, assim como intermédio, isto é, que tem situação intermediária a duas outras estruturas ou formações